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liquitex

pintu.jpg

Título: Hippodroma
Técnica: Acrílica (Liquitex) sobre Duratex
Dimensões: 80 x 80 cm.
Data: Setembro 1969

Um belo dia, em 1969, a informação correu como fogo em rastilho de pólvora: Chegou Liquitex na Casa do Artista!

Localizada na R. Major Sertório, no centro de São Paulo, a loja era a Meca dos artistas e lá fui eu comprar a tinta, facílima de usar pois era solúvel em água.

A primeira tinta acrílica surgiu nos E.U.A. em 1947 com o nome Magna, solúvel em aguarrás. Muito mais prática e fácil de usar, a Liquitex foi inventada em 1955 também nos E.U.A. e teve seu uso no Brasil disseminado graças a alguns artistas que começaram a usar intensamente Liquitex no final dos anos 60, como Aldemir Martins, Wesley Duke Lee e Luis Paulo Baravelli.

A Casa do Artista surgiu no início dos anos 60, especializada em materiais de desenho para engenharia e arquitetura, mas com o crescente uso da tinta acrílica, a Liquitex e os materiais para pintura entraram com força.

Comprei as tintas, encomendei algumas pranchas e iniciei minhas primeiras pinturas. Dei fundo, lixei, dei fundo branco novamente, marquei o desenho a lápis, coloquei a máscara de Durex e mandei bala na deliciosa tinta.
O cheiro ficou gravado até hoje, é único. O momento de retirar a máscara é mágico, você fica torcendo para que a tinta não tenha vazado. Pronto! Ficou lindo!

Enviei no mesmo ano o trabalho para a exposição coletiva III Jovem Arte Contemporânea no MAC-USP, e foi recusado pelo júri.

A pintura sobreviveu bem, está um pouco suja e riscada, afinal já são 51 anos, mas as cores estão vivas, aguentou muito bem!

Obrigado Caetano Ferrari pelas informações!

é isso, por fernando stickel [ 7:00 ]

de pessoas e suas influências

Uma conjunção muito especial de fatores propiciou a sistematização destas memórias, focadas principalmente nos anos 70, um pouco antes e um pouco depois.
Em Fevereiro deste ano faleceu meu amigo Frederico Nasser, na sequência instalou-se a pandemia do coronavírus e a quarentena.
Na enorme quantidade de tempo livre resultante me voltei para arquivos fechados há muitos anos, repassei textos, documentos, atualizei este blog e registrei novas memórias. Um documento em particular atuou como poderoso catalisador de lembranças, o convite de casamento do Frederico e Marina. Foi fundamental a ajuda dos amigos para ajustar detalhes, datas, locais e nomes! Obrigado a todos!

De pessoas e suas influências

Somos a soma de nós mesmos com tudo o mais, e tudo misturado. Adicione ao seu eu genético, à sua estrutura biológica original os aprendizados, amores, encrencas, circunstancias, os livros que leu, amizades, viagens e naturalmente os muitos erros e os poucos acertos e me terás… Vou tentar explicar. Ou não. Deixemos os fatos, ou as minhas memórias, falarem por si.

No Colégio Visconde de Porto Seguro um único professor me deixou saudades, pelo seu brilho, personalidade e integridade: Albrecht Tabor, professor de biologia e cientista maluco… A mesma coisa aconteceu no Colégio Santa Cruz com Flavio Di Giorgi, professor de português e sábio.

Me preparando para o vestibular de arquitetura no Cursinho Universitário em 1968, conheci mestres como o artista plástico Luis Paulo Baravelli, que me capturou imediatamente com sua simpatia e fascinante habilidade de desenhar, e o cineasta Francisco Ramalho Jr., professor de física. Na mesma época um amigo me falou de um curso de desenho do professor Frederico Nasser, em uma casinha de vila na R. da Consolação, estúdio emprestado por Augusto Livio Malzoni.

Fui procurar o Frederico e iniciei as aulas, desenhávamos em uma espécie de pátio, sob uma pérgula. Neste local Frederico me apresentou Marcel Duchamp e com isso selou meu destino, me conectando irremediavelmente às artes. Lá encontrei também meu primo Marcelo Villares e fiquei conhecendo D. Rene, mãe do Dudi Maia Rosa. Não sei nem como encontrava tempo para tudo isso, pois cursava simultaneamente o terceiro colegial! Foram tempos muito ricos e intensos!

Um dia precisei fazer um desenho grande e não tinha lugar adequado. Meu amigo Rubens Mario se propos a ajudar e disse que eu poderia usar a prancheta de seu amigo, o arquiteto Eduardo Longo. Rubens Mario me garantiu que não haveria problema, que o Eduardo era “gente fina” e lá fui eu em uma tarde desenhar no apartamento do arquiteto no Edifício Suzana na R. Bela Cintra.
Fiquei maravilhado com o pequeno apartamento, todo reformado, o teto em ângulos, um biombo de metal e a porta do banheiro pintada de amarelo, parecia um submarino, achei o máximo! Logo depois conheci o Eduardo pessoalmente, e somos amigos desde então.

O vestibular para arquitetura no Mackenzie em 1968 foi antes da FAUUSP, e eu fiquei sabendo através do então diretor da Arquitetura do Mackenzie, o arquiteto Salvador Candia, que eu estaria na lista de espera, nas primeiras colocações. Isto significava que eu estava praticamente matriculado no Mackenzie, pois quando saia o resultado da FAUUSP, muitos aprovados no Mackenzie desistiam para se matricular na FAUUSP, abrindo lugar para a fila de espera. Simplesmente antecipei minhas férias e fui para o Guarujá!
Poucos dias antes do vestibular da FAUUSP voltei para São Paulo, dei uma passada no Cursinho Universitário, cumprimentei os amigos, preparei meus materiais e fui para o vestibular absolutamente tranquilo! O resultado de tanta cuca fresca é que entrei na FAUUSP no 19º lugar!

Com meu colega Edo Rocha fomos para a Bahia comemorar. Na volta de Salvador capotamos o meu Fusca 68 bordô perto de Jequié, mas isto é outra história…

Em 1969 Frederico mudou seu espaço de aulas para um sobrado no Itaim, na R. Pedroso Alvarenga. Vários colegas recém ingressados na FAUUSP também tinham aulas lá, Cassio Michalany, Plinio de Toledo Piza, Edo Rocha, Leslie M. Gattegno (já falecido), Claudio Furtado… Enquanto desenhávamos nu feminino dentro da casa, Frederico pintava coisas esquisitas no pátio externo da casa… No segundo semestre de 1969 Frederico organizou uma visita de seus alunos ao estúdio do mestre Wesley Duke Lee em Santo Amaro, em um domingo de manhã. Entrar naquele estúdio já era um privilégio, fiquei totalmente fascinado! Wesley com sua cultura e charme inigualáveis, falou sobre muitas coisas, mas sobretudo sobre tecnologia e da chegada do homem à Lua recém ocorrida no dia 20 de Julho. Inesquecível!

Um belo dia, em 1969, a informação correu como fogo em rastilho de pólvora: Chegou Liquitex na Casa do Artista!


Nas setas eu e a Alice em Cabo Frio.

E houve o réveillon de 1970 em Cabo Frio, na casa do Tio Bubi e da Tia Lila, promovido pelo João e Marília Vogt. O espírito da coisa era EU VOU!!!! Todos os amigos iam, ninguém perguntou se tinha lugar ou convite, o negócio era simplesmente ir! (os anfitriões não gostaram muito… no final deu tudo certo) Foram dias fantásticos, mais de 30 pessoas, amigos, parentes, a casa explodindo, a pequena piscina abarrotada de gente!! Todo mundo soltando pipa nas dunas, inesquecível!
Entre outros minha memória acusa:
Os anfitriões Bubi e Lila, os co-anfitriões João e Marilia, Baravelli e Sakae, Zé Resende e Sophia, Fajardo e Renata, Frederico Nasser, Ricardo Alves Lima, Dudi, Gilda, Monica, Alice e eu.

No espaço da Escola Brasil: rolou uma interessantíssima aula de Tai Chi Chuan com Carlos Carvalho, na fazenda da Lucila Assumpção um fim de semana delicioso e na casa do Tremembé do Zé Resende conheci o ceramista Megumi Yuasa, em uma exposição de ceramica organizada por Frederico Nasser em Dezembro 1971, assim como as esculturas do Zé instaladas ao ar livre.

Em um salão em cima da garagem, na edícula de uma grande casa imersa nas árvores da R. Atlantica, Carlos Fajardo me apresentou Bob Dylan. Na Vila Nova Conceição no estúdio de portão verde do meu amigo Cassio Michalany rolavam intermináveis sessões de jazz, whisky e arte!

Visitar o estúdio/oficina do Baravelli na Escola Brasil: era o máximo, assim como seus estúdios particulares que sempre foram fascinantes, muito bem resolvidos arquitetonicamente, limpos, amplos, organizados. Havia de tudo lá, até um pote com unhas cortadas… foram vários:
– Av. Miruna, 1967 a 1971
– R. Padre João Manoel, esquina da Oscar Freire, 1971 a 1974 (neste espaço surgiu a primeira Galeria Luisa Strina)
– R. Pedroso Alvarenga, 1974 a 1979
– R. João Cachoeira, 1980 a 1984
– Granja Viana, 1984 até hoje
Pelo menos duas galerias saíram das suas hábeis mãos, Galeria Luisa Strina e Galeria São Paulo na R. Estados Unidos, da Regina Boni.
O mesmo fascínio e curiosidade acontecia também no novo estúdio do Fajardo, em um porão da Rua Pamplona, onde ele também dava aulas.

Em Janeiro de 1970 Dudi Maia Rosa, Frederico Nasser, Augusto Livio Malzoni, e eu partilhamos um gigantesco quarto no Wellington Hotel da 7ª Avenida em New York, para um mês de imersão no universo das artes, com direito a tropeçar em Diane Arbus no Automat Horn & Hardardt da Rua 57… e visita à inesquecível exposição “New York Painting and Sculpture: 1940-1970” no Metropolitan Museum of Art, inaugurando sob curadoria de Henry Geldzahler o Departamento de Arte Contemporânea do Museu. Baby Maia Rosa, que aparece na foto, estava em outro endereço.

Na sequência do estúdio na R. Pedroso Alvarenga, Frederico Nasser com seus amigos e colegas artistas plásticos Luis Paulo Baravelli, Carlos Fajardo, e José Resende criaram o Centro de Experimentação Artística Brasil: na Av. Rouxinol 51 em Moema. Eu fui aluno em 1970, no ano da abertura daquela que ficou conhecida como Escola Brasil:

No segundo semestre de 1970, Baravelli, Fajardo, Nasser e Resende realizaram a poderosa exposição BFNR 1970 no MAM Rio de Janeiro em Agosto e no MACUSP em Setembro. Eu estou em uma foto na capa do catálogo do Frederico, e fiz alguns retratos do artista. Fui ao Rio para a inauguração, me hospedei “comme il faut” no apartamento da Vovó Zaíra de frente para o mar no Posto 6 em Copacabana, foram dias deliciosos com direito a um jantar no Antonio’s…

Frederico Nasser teve uma importância gigantesca na minha vida e na minha opção pelas artes plásticas. Foi uma presença instigante, fascinante, generosa, surpreendente e carismática, um poderoso magneto que despertava conhecimento e provocava sede de saber, e de quebra atraía muitas pessoas, que se conheceram e formaram um grupo de amigos e amantes das artes que de uma maneira ou outra gravitavam em torno da Escola. Amigos como Augusto Livio Malzoni, Sophia Silva Telles, Dudi Maia Rosa, Gilda Vogt, Norma Telles, Lucila Assumpção, Baby Maia Rosa, José Carlos BOI Cezar Ferreira (1944-2018), Leila Ferraz, Wesley Duke Lee (1931-2010), Maciej Babinski, Guto Lacaz, Arnaldo Pappalardo, Santuza Andrade, Megumi Yuasa, e muitos outros foram fruto desta amizade.

Em 1971 casei com Maria Alice Kalil, e convidei o Frederico para ser meu padrinho. Durante alguns anos Frederico frequentou assiduamente meu apartamento na R. Hans Nobiling, éramos amigos íntimos, Frederico aparecia com presentes, uma bebida, um desenho do Evandro Carlos Jardim… No apartamento de cima havia sempre festas, e acabamos descobrindo que lá morava o mafioso Tommaso Buscetta!!
O casamento com a Alice terminou, mudei para um apartamento na R. Tucumã 141 e comecei a namorar a Iris Di Ciommo, por volta de 1974.

No enorme apartamento na Av. Angélica, de frente para a Pça. Buenos Aires, onde morava com os pais Lamartine e Rene, Dudi Maia Rosa montou um pequeno atelier de gravura, e foi lá que ele me ensinou a fazer a primeira e única gravura da minha carreira em 10 Agosto 1972… Obrigado Dudera! Neste mesmo ano Dudi e Gilda se casaram em uma linda festa na casa do João e Marília em Osasco.
Muitos anos depois, já nos 2000, Dudi foi a mola propulsora para eu criar este blog, mas esta é outra história….

A Galeria Luisa Strina inaugurada em 1974 tinha seu acesso pela R. Padre João Manoel por uma escada que levava à sobreloja. Passava-se por um pequeno espaço administrativo e chegava-se a um paralelepípedo de paredes brancas com o chão de tacos de madeira, logo à esquerda o “escritório” da Luisa era nada mais que uma mesinha com telefone e algumas cadeiras. Sentada em seu canto Luisa recebia clientes, amigos, colecionadores, xeretas e desocupados que lá ficavam visitando, papeando, e, naturalmente, comprando! Lá encontrei inúmeras vezes o meu contraparente Pituca Roviralta, já falecido, um dos primeiros compradores do meu treabalho…

Xico Leão era um dos alunos da Escola, um doce de pessoa, simpático, reservado, atencioso, e além de tudo um excelente pintor. Marina, sua filha, muito jovem, bonita e delicada caiu nas graças do Prof. Nasser. O namoro evoluiu e chegou o casamento, o Frederico me convidou para ser seu padrinho, Iris e eu nos preparamos e na quarta-feira 8 de Dezembro 1976 embarcamos na minha VW Variant amarela para estarmos pontualmente na casa dos pais da noiva, Xico e Zizá na R. Bolivia às 20:30h
O casamento se deu em altíssimo astral, me diverti muito, fiquei bêbado, conversei com todo mundo, foi uma farra! Lá pelas tantas encontrei D. Maria Cecilia, minha professora do Kindergarten no Colégio Porto Seguro, me apresentei e disse a ela:
-D. Maria Cecilia, que prazer!!! A senhora está muito bem!!! Ela me olhou de viés, sem entender direito, e eu prossegui rodopiando…
Iris e eu fomos os últimos a sair da festa, voltamos alegremente para casa na alta madrugada, eu pilotando a Variant amarela como se fosse um Porsche. Lembro-me que no dia seguinte, repassando a façanha automobilística da madrugada, decidi comigo mesmo nunca mais cometer a tolice de pilotar bêbado.

Em 1977 nasceu minha filha Fernanda, seu padrinho foi Cassio Michalany, ele deu de presente para ela uma tela de 15 x 15 cm. Um ladrilho tecido e pintado a mão, em cada aniversário ela ganhou mais um… Em 1979 nasceu o meu filho Antonio, e convidei o Frederico para ser seu padrinho (ausente, diga-se…)

Na segunda metade dos anos 70 Frederico Nasser planejava abrir uma livraria. Em uma conversa no Guarujá com Dudi Maia Rosa, Claudinho Fernandes, que também queria abrir uma livraria ficou sabendo dos planos do Frederico, e acabaram se compondo, abrindo em 1978 como sócios a Livraria Horizonte na R. Jesuino Arruda 806, quase esquina da R. João Cachoeira.
O imóvel selecionado abrigava originalmente um açougue, e o Baravelli, homem dos sete instrumentos, o transformou em uma charmosa livraria de tijolinhos à vista, que acabou virando ponto de encontro dos amigos artistas, era uma farra, uma enorme mesa central e poltronas confortáveis completavam o ambiente acolhedor. No andar de cima Frederico tocava sua editora Ex Libris. Naquela época eu era sócio do Norberto (Lelé) Chamma na empresa de design gráfico “und” e produzimos alguns itens gráficos para a livraria.

Plinio e Virginia casaram-se em 1978.

Na sequência Frederico e Claudinho desmancharam a sociedade e o Frederico montou em 1980, também com projeto do Baravelli, uma nova livraria, a poucas dezenas de metros, na R. João Cachoeira 267. A execução da obra a cargo do faz tudo Roberto (o chão era de tijolo aparente, cortado a 45 graus) com dois mezaninos e janelas abertas ilegalmente para a lateral do prédio.
A Livraria Universo tinha como vizinhos a CLICK Molduras, de Odila de Oliveira Lee, mulher de William Bowman Lee, pais de Wesley Duke Lee, o estúdio do artista plástico Luis Paulo Baravelli na sobreloja, e o escritório de paisagismo de Toledo Piza, Cabral e Ishii, arquitetos associados na edícula.
Algum tempo depois a Livraria Universo fechou as portas ao público, trabalhando somente com visitas agendadas e se especializando em livros raros. Lá Frederico continuava a operar a Editora Ex Libris/Edições Universo, lançando em 1987 o notável livro “O Perfeito Cozinheiro das Almas deste Mundo…” fac-símile do diário coletivo da garçonnière de Oswald de Andrade.

Em seu novo estúdio inaugurado em 1980 na R. João Cachoeira, Baravelli trabalhava à noite. Os amigos mais próximos se davam ao direito de chegar, tocar a campainha, subir as escadas e ficar lá perturbando o artista. Por vezes ele colocava um bilhete na campainha: ESTOU TRABALHANDO – CAMPAINHA DESLIGADA. Neste espaço certo dia Baravelli confidenciou aos amigos:
– Estou com uma grana, não sei se faço uma revista de arte ou compro um Camaro…
E a opção foi fazer a revista Arte em São Paulo! Muito pragmaticamente, Baravelli fez a lista dos itens necessários, e comprou-os:
– Impressora
– Prensa de hot stamping para as capas
– Encadernadora espiral
– Estoque de papel para impressão
– Estoque de cartão para as capas
Finalmente contratou Lisette Lagnado e Marion Strecker Gomes, duas jovens estudantes jornalistas, para tocarem a revista. O primeiro número saiu em 1981, com um texto meu sobre Cassio Michalany, e o último em 1985.

Entrando nos anos 80 minha vida virou de ponta cabeça… tomei a decisão de ser artista plástico profissional, saí do escritório de design gráfico “und” que havia criado com o Lelé Chamma, separei da Iris, mudei para o apartamento da R. Pinheiros, foi um caos!
A estas alturas o encanto dos anos 70 criativos e loucos estava se quebrando, os contatos entre aquela grande turma de amigos foram se espaçando, as amizades se esgarçando, cada um cuidando de sua vida, os filhos crescendo, e o Frederico iniciou um processo misterioso de se fechar para o mundo. Pouco a pouco foi evitando o contato social com amigos, família e foi se isolando. Não respondia telefonemas, ninguém entendia o que estava acontecendo.

Muitos anos depois, andando de carro pelo Itaim na véspera do Natal vi o Frederico andando a pé na calçada oposta, parei o carro e me dirigi a ele de mão estendida, feliz com o encontro! Frederico simplesmente me ignorou e passou reto… eu fiquei ali incrédulo, parado com a mão estendida, observando ele se afastar, totalmente alheio à minha presença… Que Frederico Nasser era aquele?!!

Seu coração falhou definitivamente no início de 2020 aos 75 anos de idade. Foi muito triste e difícil aceitar a perda de um amigo, o luto e a tristeza que senti em 2020 já havia sentido e trabalhado durante quase 40 anos…

Fernando Stickel
9 Julho 2020

Agradecimentos:
Sandra Pierzchalski
Plinio de Toledo Piza Filho
Claudio Furtado
Iris Di Ciommo
Claudio Fernandes
Mauro Lopes
Monica Vogt Marques
Luis Paulo Baravelli
Cassio Michalany
José Resende

é isso, por fernando stickel [ 10:37 ]

nyc 85 na suzanna sassoun

fs New York 1
Foto Beatriz Schiller, New York, 1985.

Morando em New York em 1985 em um loft eu tinha espaço para produzir arte de grandes dimensões.
Já havia feito lá pinturas sobre tela de 4 metros de comprimento, e resolvi mudar o suporte, comprei um rolo de papel preto, destes que se usa em estúdios fotográficos, e pedi para minha amiga Lisa posar.

G3ô

Nesta sessão de Novembro de 1985 fiz várias pinturas grandes (na verdade são desenhos feitos com pincel e tinta). Um mês depois encerrei minha estadia em NYC e voltei ao Brasil, carregando um gigantesco rolo de trabalhos em papel, que foram emoldurados e expostos em 27 Abril 1986 na exposição “NYC 1985” na Galeria Suzana Sassoun em São Paulo.

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O convite da exposição.


Minha amiga Gilda Mattar me fotografou.


Meu amigo Baravelli escreveu um texto.

é isso, por fernando stickel [ 8:54 ]

baravelli em brasília


Carl Gustav Jung explica:

Minha querida amiga Sylvia Ficher, colega de classe da FAUUSP, mora hoje em dia em Brasília.
Há poucos dias, a partir de um post que fiz sobre a Escola Brasil:, começamos a conversar sobre a Revista Arte em São Paulo, editada por Luis Paulo Baravelli nos anos 1980. A conversa evoluiu e ela lembrou que comprou nos anos 70, muito antes de saber que iria morar em Brasilia, uma peça do Baravelli da exposição de Baravelli, Fajardo, Nasser e Resende no MAC São Paulo e MAM Rio de Janeiro em 1970.

Ficha técnica da peça:
Título: Restos de Brasília
Data: 1967/70
Técnica: Acrílico, latão cerâmica, madeira pintada
Dimensões: 45 x 28 x 12 cm.


E eu dou o seguinte título a esta experiência de sincronicidade: Memories of the Future

A Sylvia completa a história contando que a peça chama-se “Restos de Brasília” porque o Baravelli havia mandado uma peça para uma exposição em Brasília dentro de uma caixa feita no maior capricho para protege-la. E devolveram o trabalho todo entuchado de qualquer jeito na caixa… Foi com esses restos – cacos de azulejos, placa de acrílico quebrada e mais um lajotas – que ele montou a nova peça.

O próprio Baravelli completa a história em e-mail para mim:
Super confere a história da Silvia (abraço pra ela!), mas tem mais tempero político. Este trabalho mandei para um salão de arte em Brasília (em 1969, acho) e ainda antes da exposição a turma do CCC (Comando de Caça aos Comunistas) entrou no depósito e quebrou tudo o que eles não gostavam, a minha peça inclusive. A peça original chamava “Voando pelo Brasil”, sem nenhuma contestação política nem nada.
Os organizadores não tiveram outro jeito a não ser encaixotar e devolver.
Lembro que na tal exposição (acho que se chamava algo como 1o. Salão de Brasília) também havia trabalhos do Gerchmann, do Nitsche, do Vergara e do Tozzi, que também foram destruídos.

é isso, por fernando stickel [ 9:55 ]

faleceu frederico jayme nasser


Faleceu o meu amigo Frederico Jayme Nasser aos 75 anos de idade.

Ele teve uma importância gigantesca na minha vida e na minha opção pelas artes plásticas. Foi uma presença instigante, fascinante, generosa, surpreendente e carismática.

Frederico foi meu professor, abriu caminhos e me apresentou ao mundo das artes plásticas do final dos anos 60 e início dos 70. Amigos como Augusto Livio Malzoni, Dudi Maia Rosa, José Carlos BOI Cezar Ferreira (1944-2018), Wesley Duke Lee (1931-2010) e muitos outros foram fruto desta amizade.

Juntamente com os amigos Luiz Paulo Baravelli, Carlos Fajardo e José Resende, Frederico instalou em 1970 o Centro de Experimentação Artística Brasil: na Av. Rouxinol 51 em Moema, que teve importância capital na formação de toda uma geração de artistas, eu incluido.

Além de tudo isso nós éramos muito amigos, tivemos uma relação pessoal muito forte, ele foi meu padrinho de casamento com a Alice Kalil em 1971, e eu fui padrinho do casamento dele com a Marina Leão em 1976, ele foi ainda padrinho (ausente, diga-se) do meu filho Antonio em 1979.

Ocorre que logo na sequência desses eventos familiares muito alegres, e entrando nos anos 80 o Frederico iniciou um processo misterioso de se fechar para o mundo, pouco a pouco ele foi evitando o contato social com amigos, família e foi se isolando. Ninguém entendia o que estava acontecendo.

Certa feita andando de carro pelo Itaim vi o Frederico andando a pé na calçada oposta, parei o carro e me dirigi a ele de mão estendida, feliz com o encontro! Frederico simplesmente me ignorou e passou reto… eu fiquei ali incrédulo, parado com a mão estendida, observando ele se afastar totalmente alheio à minha presença…

Seu coração falhou, não uma e definitiva vez há dois dias atrás, mas falhou durante quase quatro décadas. Foi muito triste e difícil de aceitar a perda de um amigo ainda vivo, o luto e a tristeza que agora sinto já senti e trabalhei durante quase 40 anos…


Polaroid do estúdio do Frederico Nasser em 28/12/1975
Da esquerda para a direita, Iris Di Ciommo, Frederico Nasser, Cassio Michalany e eu.


Transcrevendo o recorte:
Marina Ferraz de Camargo Leão tornou-se pela Lei dos Homens a sra. Frederico Jayme Nasser durante recepção na residência de sua avó, Haydée França Ferraz de Camargo, viuva de meu saudoso amigo José Ferraz de Camargo. Foi uma reunião íntima, co-anfitrionada pelos pais de Marina e Frederico: Helena Ferraz de Camargo e Francisco Moreira Dubeux Leão, Elisa e Jayme Nasser.
A casa da rua Bolivia era decorada por Mareio à base de malvas, jasmins e crisantemos e na pauta gastronomica: salada primavera, lagosta com camarão e molho rosé, rosbife com batata doce caramelada ao Madeira, e o Moet et Chandon correndo de ponta a ponta.
Foram padrinhos da noiva (vestida em tons cinza do Red E Blue): Josefina Leão e Joaquim Leão, Helena Moreau e Ornar Campos, Monica Frier e José Luiz Leão. Testemunharam pelo noivo, Maria Elisa Nasser e Augusto Livio Malzoni, sr. e sra. Fernando Stickel e o sr. e sra. Raphael Rosi (engano da redação, o nome correto é Rafael Maia Rosa)
A cerimonia religiosa oficiada ontem por Monsenhor Benedito Calazans foi em casa dos pais de Marina, na rua Bolivia.

é isso, por fernando stickel [ 16:50 ]

a trama do gosto – natureza morta


O convite da mostra.


No ano de 1987 fui convidado pela Sonia Fontanezi, Curadora Geral da mostra para ser o sub-curador de um espaço na exposição “A Trama do Gosto, um outro olhar sobre o cotidiano”, que ocupou o prédio da Fundação Bienal de São Paulo no Ibirapuera. Lá criei um espaço intitulado “Natureza Morta Limitada”, onde foram expostas obras de arte alusivas ao tema “Natureza Morta”, dos clássicos aos contemporâneos.
Um dos trabalhos expostos foi a recriação, com os modelos da época, cedidos pelo Museu da Casa Brasileira, de uma pintura de Pedro Alexandrino, “Peru depenado” de 1903, cedida pela Pinacoteca.


Paralelamente ao espaço de exposição, dei aulas públicas de desenho de observação, para quem quisesse se inscrever.
Estes desenhos foram feitos por participantes da oficina de desenho e sobreviveram 26 anos na minha mapoteca… o modelo foi a Lela Severino, que posou para meus alunos durante muitos anos.

Convidei e selecionei muitos artistas para participar da “Natureza Morta Limitada”, entre eles:
Amelia Toledo
Antonio Cabral
Antonio Peticov
Babinski
Ciça Abs André
Dudi Maia Rosa
Ester Grinspum
Fabio Cardoso
Felipe Tassara
Feres Lourenço Khoury
Flávia Ribeiro
Flávio Motta 
Gilda Mattar
Gilda Vogt
Guyer Salles
Ivan Kudrna
Jeanete Musatti
João Carneiro da Cunha
José Carlos BOI Cezar Ferreira
Luise Weiss
Luiz Paulo Baravelli
Margot de Mattos Delgado
Marisa Bicelli
Nelson Leirner
Pedro Alexandrino
Pinky Wainer
Rosely Nakagawa
Silvia Elboni
Stella Ferraz de Camargo
Ucho Carvalho
Wesley Duke Lee


Fotos de autoria da Marisa Bicelli, tiradas no meu estudio da R. Ribeirão Claro. A camiseta foi criação minha, sou eu mesmo a usá-la.

é isso, por fernando stickel [ 1:00 ]

livraria horizonte

horizonte

Horizonte2
Na segunda metade dos anos 70 Frederico Nasser planejava abrir uma livraria. Em uma conversa no Guarujá com Dudi Maia Rosa, Claudinho Fernandes, que também queria abrir uma livraria ficou sabendo dos planos do Frederico, e acabaram se compondo, abrindo em 1978 como sócios a Livraria Horizonte na R. Jesuino Arruda 806, quase esquina da R. João Cachoeira.

O imóvel selecionado abrigava um açougue, e o Baravelli, homem dos sete instrumentos, o transformou em uma charmosa livraria, que acabou virando ponto de encontro dos amigos artistas, era uma farra, uma enorme mesa central e poltronas confortáveis completavam o ambiente acolhedor. No andar de cima Frederico tocava sua editora Ex Libris.

Naquela época, 1978 ou 79, eu era sócio do Norberto (Lelé) Chamma na empresa de design gráfico “und” e produzimos alguns itens gráficos para a livraria.

Na sequência Frederico e Claudinho desmancharam a sociedade e o Frederico montou em 1980, também com projeto do Baravelli, uma nova livraria, a poucas dezenas de metros, na R. João Cachoeira 267, onde hoje existe uma agência do Santander. A Livraria Universo tinha como vizinhos a CLICK Molduras, de Odila de Oliveira Lee, mulher de William Bowman Lee, pais de Wesley Duke Lee, o estúdio do artista plástico Luis Paulo Baravelli na sobreloja, e o escritório da paisagista Sakae Ishii na edícula.

Algum tempo depois a Livraria Universo fechou as portas ao público, trabalhando somente com visitas agendadas, se especializando em livros raros. Lá Frederico continuava a operar a Editora Ex Libris, lançando em 1987 o notável livro “O Perfeito Cozinheiro das Almas deste Mundo…” fac-símile do diário coletivo da garçonnière de Oswald de Andrade.

é isso, por fernando stickel [ 18:26 ]

meu quarto de solteiro

quarto2
Meu quarto na casa dos meus pais na Rua dos Franceses, Bela Vista, no início dos anos 70.
Nesta época eu estava totalmente “intoxicado” pelo mundo das artes, frequentava a Escola Brasil: e tinha aulas com os mestres Luiz PauloBaravelli, Carlos Fajardo, Frederico Nasser e José Resende.
Vivia as artes intensamente, com curiosidade e tesão e mesclava as artes “da casa dos pais” com as minhas aventuras na pintura.
Em Maio 1971, me casei com a Alice e saí da casa dos meus pais.

tanque
Meu quarto refletido no tanque de gasolina cromado da motocicleta Royal Enfield 350 “Bullet”, que eu havia desmontado.

é isso, por fernando stickel [ 10:14 ]

cooperativa dos artistas plásticos


Bem ou mal, através do Facebook vão surgindo informações interessantes.
Sobre a Cooperativa dos Artistas Plásticos de São Paulo, por exemplo, postou hoje o meu amigo Oswaldo Pepe este cartaz de uma exposição de gravuras realizada em Dezembro de 1978, no Paço das Artes, na Av. Europa 158 em São Paulo.
Hoje neste endereço situa-se o Museu da Imagem e do Som – MIS
Através dos nomes no cartaz, atualizei a lista dos membros da Cooperativa, que salve imperfeições foram os seguintes:

Aldemir Martins
Antonio Carlos Rodrigues – Tuneu
Antonio Gundemaro Lizarraga
Arnaldo Pappalardo
Caciporé Torres
Carlos Alberto Fajardo
Carlos Augusto GUTO Lacaz
Carmela Gross
Cassio Michalany
Claudio Tozzi
Clovis Graciano
Ely Bueno de Andrade
Ermelindo Nardin
Fabio Magalhães
Flavio Shiro
Fernando Lion
Fernando Zanforlin
Gabriel Borba
Gabriel Zellmeister
Gerty Sarue
Gilda Vogt
Guto Lacaz
Ivald Granato
João Xavier
José Carlos BOI Cezar Ferreira
José Morais
Julio Plaza
Leila Ferraz
Lizárraga
Lothar Charoux
Luis Paulo Baravelli
Marcelo Nitsche
Marcio Perigo
Mario Fiore
Massuo Nakakubo
Mauricio Fridman
Mauricio Nogueira Lima
Newton Mesquita
Odair Magalhães
Odileia Toscano
Portillo
Rafael DUDI Maia Rosa
Regina Silveira
Regina Vater
Ricardo Amadeo
Romildo Paiva
Sacilotto
Sara Goldman
Selma Dafre
Sergio Fingerman
Tomie Ohtake
Tomoshigue Kusuno
Tuneu
Ubirajara Ribeiro
Waldir Sarubbi
Yolanda Bessa

A confirmar:
Alex Fleming
Carlos Lemos
Carlos Martins
Emanoel Araujo
Gilberto Salvador
Graciano
Gregório Gruber
León Ferrari
Mario Gruber
Megumi Yuasa
Rebolo
Rafael França
Renina Katz
Samuel Szpigel

é isso, por fernando stickel [ 16:27 ]

cooperativa

Meu amigo Gabriel Borba, com incrível presteza, postou esse comentário, altamente esclarecedor:

A Cooperativa teve uma primeira gestão com diretoria formada por Ubirajara Ribeiro, Carlos Fajardo e eu mesmo. Funcionava no meu ateliê, Al. Lorena e tinha como secretária a Ushe.
Os trabalhos de gravação foram feitos no ateliê do Ubirajara Ribeiro, no Pacaembu se não me engano, e as assembleias no ateliê do Fajardo, na rua Pamplona.
A segunda gestão teve o Maurício Fridman, o Boi e mais alguém na diretoria (é preciso investigar melhor esta composição pois já não me lembro bem, por exemplo, do papel do Boi). Foi esta gestão que decidiu pelo espaço expositivo na Rua Joaquim Floriano 666 (logotipo do Julio Plaza) e pela publicação do periódico ABC Color.
A foto me foi enviada há tempos pelo Granato e nela está a Selma Dafre com uma interrogação e a Yolanda Bessa com o nome incompleto. A lista de cooperados está longe de ser completa. Sara Goldman, Carmela Gross e Marcelo Nitsche eram cooperados pelo que me lembro e, de memória, sinto falta dos nomes de Gerti Saruê, Feo Zanforlin, Gilberto Salvador, Lizarraga, Rafael França, Tomoshigue Kusuno, Mario Gruber (frequentou assembleia, não sei se era cooperado) e muitos, mas muitos outros.
Eramos uns oitenta, pelo menos uns cinquenta. A ação mais relevante a meu ver foi o lançamento do album “Desenho Como Instrumento”, na Pinacoteca. E a ocorrência mais pirada foi conhecida como a “Guerra das Gravuras”, envolvendo umas galerias da cidade.
Mas muito cuidado: estou esticando minha memória e o que expus serve apena como roteiro para pesquisa mais apurada e isto deve ser mencionado ao usar este meu texto. Há documentaçao sobre tudo e as cópias que ficaram comigo foram emprestada para Adalice Araujo e Jair Mendes de Curitiba e nunca devolvidos. Estes fatos são históricos e é muito apropriado que sejam levantados finalmente.
GB.

cooperativa
Fundada em 1979 em São Paulo, a Cooperativa dos Artistas Plásticos de São Paulo teve um espaço de exposições na R. Joaquim Floriano, e pouco mais se sabe, pesquisando a internet.
Seus membros, salve imperfeições:

Arnaldo Pappalardo
Carmela Gross
Carlos Alberto Fajardo
Cassio Michalany
Dudi Maia Rosa
Eli Bueno
Gabriel Borba
Gabriel Zellmeister
Gilda Vogt
Guto Lacaz
Ivald Granato
João Xavier
José Carlos BOI Cezar Ferreira
Julio Plaza
Leila Ferraz
Luis Paulo Baravelli
Marcelo Nitsche
Marcio Perigo
Mario Fiore
Mauricio Fridman
Mauricio Nogueira Lima
Newton Mesquita
Regina Silveira
Regina Vater
Ricardo Amadeo
Sacilotto
Sara Goldman
Selma Dafre
Sergio Fingerman
Tomie Ohtake
Ubirajara Ribeiro
Waldir Sarubbi
Yolanda Bessa

A confirmar:

Alex Fleming
Carlos Lemos
Claudio Tozzi
Emanoel Araujo
Gerty Saruê
Gilberto Salvador
Graciano
Gregório Gruber
León Ferrari
Lizárraga
Lothar Charoux
Mario Gruber
Megumi Yuasa
Nakakubo
Odair Magalhães
Odiléia Toscano
Rebolo
Rafael França
Renina Katz
Romildo Paiva
Samuel Szpigel
Tuneu

é isso, por fernando stickel [ 11:10 ]

automat & diane arbus

automat
Em 1970 fui a New York com 22 anos de idade, sériamente intoxicado pelo vírus da ARTE, que havia adquirido no contato com Luis Paulo Baravelli no Cursinho Universitário, e nas aulas de desenho de observação de Frederico Nasser.

Lá um grupo de amigos artistas se encontrou, Dudi Maia Rosa, Frederico Nasser, Augusto Livio Malzoni, Baby Maia Rosa e eu.

Visitávamos os museus e galerias, conversavamos “non stop”, fascinados com o poder da ARTE que exalava da megalópole, e muitas vezes frequentavamos o restaurante self service “Automat” da Horn & Hardart da Rua 57, muito barato e sem atendentes, comprava-se o prato que ficava exposto em vitrines automáticas, colocando moedas.
Eu ficava fascinado com aquele lugar, principalmente pelas pessoas malucas e esquisitas que por lá ficavam, pois não havia ninguém para enxotá-las. Era inverno, e lá dentro era aquecido.

diane
Estas memórias voltaram avassaladoras pela leitura da biografia da fotógrafa Diane Arbus, falecida em 1971 aos 48 anos, por Patricia Bosworth, que exatamente nos anos 60 frequentava o submundo de New York, incluindo aí o Automat da 57 Street… mencionado diversas vezes livro afora.

é isso, por fernando stickel [ 9:02 ]

baravelli setentão


Meu mestre e amigo Luis Paulo Baravelli completa hoje 70 anos de idade!!! E continua sendo um menino brincalhão!
SETENTA!!!
Long live Baravelli!!

Conheça aqui sua obra completa.

é isso, por fernando stickel [ 21:53 ]

rouxinol 51, o catálogo

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A capa do catálogo

Em 2005/06 a Fundação Stickel dedicava-se ao projeto de implantação, ao longo de três anos, de um “Centro de Pesquisas sobre a Escola Brasil: e a Arte Contemporânea Paulista”, sob coordenação da Profª Drª Claudia Valladão de Mattos, constituindo um espaço de referência sobre este tema, aberto ao público, com múltiplas atividades, inclusive banco de dados informatizado.
A Escola Brasil: fundada em 1970, pelos artistas Luiz Paulo Baravelli, Carlos Fajardo, Frederico Nasser e José Resende, funcionou como instituição de ensino entre 1970 e 1974 e opôs-se às formas pedagógicas tradicionais. Sua proposta de aprendizagem baseava-se na vivência e na atividade artística como experimentação, apoiando-se fortemente no modelo de formação recebido pelos seus fundadores na convivência com Wesley Duke Lee.
Procurando romper com as formas de ensino tradicionais, fundadas numa relação autoritária entre professor e aluno, os quatro artistas organizaram a Escola, não em torno de um currículo fixo e progressivo, mas em torno das personalidades de cada um dos fundadores. Os Ateliês tinham o nome de seus professores com a constante modificação do conteúdo de acordo com a orientação do professor.

Este trabalho de pesquisa resultou na exposição ROUXINOL 51 – UM OLHAR SOBRE A ESCOLA BRASIL: com a edição de um catálogo, com projeto gráfico de Iris Di Ciommo e texto da Profª Drª Claudia Valladão de Mattos, a seguir:

“Arte é muitas coisas”:
sobre a Escola Brasil: e o ensino da arte contemporânea

Prof. Dra. Claudia Valladão de Mattos

Rouxinol 51. Nesse endereço funcionou entre 1970 e 1974 a Escola Brasil:. Seus fundadores, os jovens artistas Baravelli, Fajardo, Nasser e Resende, possuíam uma história comum de aprendizagem com Wesley Duke Lee, alguma experiência como professor e o desejo de realizar uma revolução no ensino das artes. De acordo com Baravelli, a idéia inicial de fundar uma escola foi de José Resende e surgiu na época em que, após terem sido ‘diplomados’ por Wesley, os quatro passaram a compartilhar um mesmo ateliê: “Um dia ele falou: ‘Olha, vamos lá no bar pedir um chopp que eu preciso conversar uma coisa com vocês aí, quero fazer uma proposta.’ ‘Está bom, vamos lá’. ‘Vamos fazer uma escola.’ ‘Escola? Como? Quem? Como fazer uma escola?’ ‘Essa coisa que a gente está fazendo aqui, a gente pode expandir, aumentar e tal’”.
Pouco depois, a experiência de ateliê comum terminou, tendo cada um alugado seu próprio espaço, mas a idéia da escola permaneceu viva. Ainda de acordo com Baravelli, nos dois anos seguintes os quatro artistas passaram a fazer uma espécie de teste piloto do que poderia ser a escola, até finalmente decidirem de fato realizá-la: “tínhamos discussões contínuas tentando dar corpo ao que seria o nosso ensino, o que seria a Escola Brasil:”, lembra Fajardo.
Claro estava que o fundamento da escola deveria ser suas próprias experiências como artistas. Mas que experiência exatamente tinham esses quatro jovens no momento da fundação da Escola Brasil:? E por que tal experiência exigia um novo projeto pedagógico?

Devemos lembrar que os quatro artistas começaram suas carreiras durante um período especialmente significativo para a história da arte brasileira. A passagem dos anos 60 para os anos 70 foi marcada por grandes transformações políticas, econômicas e sociais que alteraram significativamente o cenário das artes em São Paulo. Foram os anos da ditadura e da articulação de novas formas de resistência e sobrevivência cultural, mas também os anos do‘milagre econômico’ que proporcionou as condições para o surgimento da cultura de massas, para o nascimento de um mercado de arte, propriamente dito, e para uma internacionalização da produção artística. Ampliaram-se, num espaço relativamente curto de tempo, os horizontes tradicionais da arte, e ela passou a se caracterizar fundamentalmente por uma intensa experimentação, tanto no que se refere aos materiais, quanto a conceitos.

O convívio com Wesley Duke Lee havia posto os quatro artistas, desde muito cedo, em contato direto com os debates sobre arte que se desenvolviam então em São Paulo. As atividades do Grupo Rex, organizadas em torno da figura irreverente de Wesley, das quais participaram ‘milagre econômico’ que proporcionou as condições para o surgimento da cultura de massas, para o nascimento de um mercado de arte, propriamente dito, e para uma internacionalização da produção artística. Ampliaram-se, num espaço relativamente Resende, Fajardo e Nasser, atualizavam o pensamento de Duchamp, questionando as formas geralmente aceitas de arte, denunciando a relação entre arte e mercado e propondo novos modelos de atuação para o artista. No final da década de 60 também se multiplicaram as oportunidades para dialogar com a produção artística internacional mais recente. Um dos espaços privilegiados para isso eram as Bienais. A Bienal de 1967 trouxe uma mostra da arte Pop, por exemplo, e em 1969 uma exposição de arte conceitual. O MAC-USP, sob a direção de Walter Zanini, também tornou-se fórum da nova arte no início dos anos 70, abrindo espaço para exposições de jovens artistas e valorizando uma produção conceitual.

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Fajardo e Baravelli

Os futuros fundadores da Escola Brasil: circulavam por estes espaços e discutiam os novos rumos da arte. Nesse contexto, surgiu uma questão central: se a arte deixou de ser definida através de seus meios artesanais tradicionais (pintura, escultura, desenho, gravura) para ampliar-se e tornar-se “muitas coisas”, para citar a definição de arte que mais tarde nortearia as atividades da Escola Brasil:, as formas tradicionais de ensino da arte também deveriam mudar. Sabemos que o ensino tradicional das “belas artes” organizara-se, ao longo de vários séculos de tradição, em torno dos gêneros tornou-se fórum da nova arte no início dos anos 70, abrindo espaço para exposições de jovens artistas e valorizando uma produção conceitual. Os futuros fundadores da Escola Brasil: circulavam por estes espaços e discutiam os novos rumos da arte. Nesse artísticos que definiam o campo da arte então. Assim, o aluno ingressando em uma instituição voltada para a formação de artistas passaria por diversos ateliês onde as técnicas tradicionais vinculadas a cada um dos gêneros da arte eram transmitidas. Este cânone acadêmico mantinha-se, paradoxalmente, ainda vivo na década de 70 (e, diga-se de passagem, continua sendo adotado por muitas instituições de ensino de arte hoje), mesmo sendo totalmente incoerente com o novo modelo ampliado de arte que estava sendo adotado por uma nova geração de artistas.

Encontrar uma nova proposta de ensino que estivesse em sintonia com os novos modelos teóricos contemporâneos que circunscreviam o campo das artes, tornou-se o desafio principal dos quatro artistas fundadores da Escola Brasil:. Esta tarefa realizou-se não sem muita discussão e experimentação no decorrer dos anos em que funcionou a Escola. Se a Escola Brasil: deu alguma contribuição significativa para o campo das artes em São Paulo, foi através da realização desse novo modelo pedagógico. Um modelo que poderíamos denominar de “didática do processo” (por razões que ficaram claras a seguir) e que se mostrou mais coerente e em sintonia com uma definição contemporânea de arte.

A apostila que definia os princípios e objetivos da Escola Brasil: abria com as seguintes palavras que deixavam claro as intenções de seus autores: “Brasil: não é uma escola de arte no sentido usual. Nas escolas de arte, em geral, o que interessa primeiro são as matérias, o aprendizado ‘teórico’. Elas estão preocupadas com os resultados imediatos e com a especialização, dando aos alunos um falso conhecimento artístico, fragmentando-o e reduzindo-o a modalidades acadêmicas de expressão. Em Brasil: o mais importante é o interesse do aluno e suas experiências. A ênfase está na experimentação constante, na investigação do processo criativo, no investigar durante o fazer, no conhecimento artístico como um todo.” Concluindo: “O processo de envolvimento do aluno durante o trabalho interessa mais do que o resultado final desse trabalho.”
Os princípios fundamentais expressos aqui valorizam o elemento conceitual (em sentido amplo) da arte, expresso através da idéia de processo. A arte deixou de ser definida através de seus materiais intrínsecos para tornar-se reflexão sobre a realidade, produzida por uma mente criativa e investigativa que lança mão, para tanto, de qualquer tipo de material para expressar-se.

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Créditos das imagens do catálogo

A estrutura do curso da Escola Brasil: espelhava esta concepção contemporânea de arte. Ao invés de organizar a Escola por ateliês ligados a diferentes meios: pintura, gravura, escultura, etc., Baravelli, Fajardo, Nasser e Resende optaram por distribuir as aulas em quatro ateliês, cada um vinculado a um deles. Nesses ateliês ocorriam atividades as mais diversas, visando estimular a criatividade e a capacidade discursiva do aluno. “A minha idéia era fazer perceber que a arte é uma linguagem que opera em todos os níveis”, recordaria Frederico Nasser em um depoimento para a revista Arte em São Paulo, em 1984.
Aprender a operar com essa linguagem seria o objetivo primeiro do curso. A apostila Brasil: descreve alguns dos exercícios idealizados para cada ateliê. Fajardo, por exemplo, propunha diferentes temas e pedia para que os alunos se manifestassem. Remontar um texto de James Joyce, criar uma topografia com massa de modelagem, ou trabalhar a partir do I-Ching, eram algumas das atividades propostas. Já o José Resende priorizava a questão da relação aluno/espaço, desenvolvendo atividades como caminhar pela escola com um rolo de barbante, ou realizar uma intervenção no espaço, acendendo e apagando as luzes. Tais investigações sobre o espaço ocorriam também fora da sala de aula, em exercícios denominados “atividades de percurso”, onde os alunos saíam para explorar a malha urbana da cidade de São Paulo.

O conceito ampliado de arte que embasava a pedagogia da Escola Brasil: permitiu ainda a ampliação do âmbito de formação do aluno. Aprender a operar de forma criativa com a linguagem das artes plásticas poderia não só ajudar na formação de um artista, mas também de outros agentes culturais, como galeristas, diretores de museus, etc.
A herança duchampiana que marcava o modelo de arte adotado pelo fundadores da Escola alertava para a impossibilidade de compreender a arte fora de seus circuitos e este princípio era levado a sério. Assim, a Escola Brasil: ajudou a formar alguns galeristas, como Luisa Strina e Regina Boni, designers e outros profissionais vinculados ao campo das artes que, como vimos, se expandia em São Paulo.

Um olhar retrospectivo sobre as atividades da Escola Brasil: nos anos de sua atuação talvez nos permita considerá-la como a primeira escola de arte verdadeiramente contemporânea em São Paulo. A presente exposição que traz uma série inédita de fotografias tiradas durante os anos de funcionamento da Escola, acompanhada de trabalhos dos alunos realizados na época, configura-se como uma tentativa de reconstruir o cotidiano da escola e com ele ressaltar a originalidade do projeto pedagógico desenvolvido ali.

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Placa da Av. Rouxinol em Moema, São Paulo, onde se localizava a Escola Brasil:

é isso, por fernando stickel [ 14:36 ]

cassio michalany na arte em s.p.


O artista plástico Cassio Michalany no portão de seu estúdio na R. Lourenço de Almeida, Vila Nova Conceição, início dos anos 80.
Abaixo o texto que escrevi sobre o artista, publicado na Revista Arte em São Paulo Nº 1, editada por Luis Paulo Baravelli em 1981.

C. M.
por Fernando Stickel

“Não me interessa a arte, me interessam os artistas.”
Marcel Duchamp

“A vida como toda obra de arte verdadeira é, apesar de tudo, sempre positiva.”
Barnett Newman

Bom dia!
O portão é verde.
O trinco é frouxo.
O homem é forte.
Trata-se do meu amigo Cassio Michalany. Toco a campainha. Às vezes ele encaixa bilhetes assim: “Volto daqui a 10 minutos” ou então “Estou no banho. Toque a campainha e espere um pouco”. Às vezes são as visitas que deixam recados, na maioria das vezes brancos, no portão verde capenga. Quando chove toco a campainha com extremo cuidado. Tenho medo de choque.
Cassio zela pela sua intimidade. De vez em quando ele tapa os buracos do portão com durepóxi e pinta de verde por cima. O portão é na rua. A casa é nos fundos.
O pátio cimentado tem tufos de capim e uma mancha de musgo no canto. Às vezes aparece um formigueiro. Cassio deixa as formigas em paz. Elas constroem esculturas no cimento. Às vezes a chuva leva tudo embora. Às vezes, quando necessário, vem um amigo que arranca os tufos de capim, deixando tudo limpo. Fica todo mundo suando e toma-se um banho no chuveiro pendurado na parede de reboco amarelado e solto.
Do pátio cimentado entra-se na cozinha através de um pequeno pórtico guarnecido de um prelo inútil e de um cano de água que vaza.
Quando a porta da cozinha está aberta, Cassio está em casa. Na cozinha, um fogão senil, uma Consul fiel, uma bicicleta e muitos garrafões de água mineral, tudo em cima dos ladrilhos hidráulicos. O piso é policromado de branco, preto e cinza. A bicicleta é branca, mas tem pneus cinza.
Cassio toma muita água, sempre. “É hidroterapia”, diz ele. De manhã, à tarde e à noite, várias vezes por noite. Depois fica suando no travesseiro.
Sendo necessário ver trabalhos antigos, convites de exposição ou não esquecer de pagar a conta da luz, Cassio pendura tudo nas paredes da cozinha. É o local obrigatório, sede do processo hidráulico.
Quando é de manhã bem cedo Cassio acorda sozinho e combate a vigília inútil na horizontal. Depois abre a janela, liga a FM, toma água, dá um tempo.
“Alimente-se bem, meu filho.” Com essas palavras ecoando há vários anos no seu ouvido, Cassio, o nadador, toma um café da manhã extremamente saudável. Esse é um dos seus segredos. E a água. E a postura.
Bom, está tudo pronto. É a hora do atleta. Cassio fecha a casa, toma a bicicleta e vai nadar fora d’água. São várias voltas. Seu caminho passa invariavelmente em frente a minha casa. Às vezes ele pára e conversamos. Às vezes na calçada, às vezes no sofá. Cassio toma água, meio a meio, “para não rachar o bloco…”. Às vezes tem um cafezinho.
Ele costuma dar de presente de aniversário para Tati, a minha filha, uma tela de 15 x 15 cm. Um ladrilho tecido e pintado a mão. Ela já tem quatro. Um de quando nasceu e mais três dos outros anos. Ela adora. Tio Cassio é meu compadre. Um dia Tati pediu: “Papai, vamos pendurar os quadros do tio Cassio?”. Ela determinou os locais e eu preguei. Tudo fora de nível.
Quando Cassio corre muito forte na bicicleta, ele solta uns berros danados. Diz que faz bem. Enquanto pedala, observa. Vai olhando as coisas, cheirando os cheiros. Observando.
Com a cabeça feita, guarda a bicicleta na cozinha, faz um cafezinho, lê o jornal, dá um tempo. Toma banho, faz a barba e põe uma roupa discreta. Às vezes é muito discreta
Aí é hora do almoço. Pega a Brasília verde, abre os portões verdes e sai devagar, para não forçar a embreagem. Cassio nunca corre, e os carros ficam mal-acostumados.
À tarde, com as baterias carregadas quase até a boca, Cassio volta para casa. Abrem-se os portões verdes da rua. Abre-se a porta da cozinha. Abrem-se pela primeira vez os portões também verdes do estúdio. Lá dentro está quente e silencioso. Enquanto o calor sai e os ruídos entram, Cassio põe uma roupa muito discreta, inteiramente policromada e rasgada em alguns pontos. É a roupa de trabalho.
Lentamente o momento vai se aproximando. As baterias estão explodindo. Acendem-se as luzes do estúdio.
É a hora do trabalho.
Cassio monta os cavaletes para trabalho horizontal. Os móveis e as coisas do estúdio olham tudo com extrema atenção. Lá fora, o céu adquire tons cinza-róseo ou azul-esverdeado, conforme o dia.
As telas virgens estão ávidas. Cassio prepara as tintas. Os potinhos de iogurte, sorvete e chantili vão se enchendo de cores. Ele vai mexendo, testando, adicionando, alterando, até chegar no ponto. É mais ou menos como fios de ovos das cores malucas e escuras. É o néctar.
Enquanto isso os pincéis descansam olhando para o teto, como se não fosse com eles. As trinchas, em compensação, ficam meio pensas, olhando de lado. Elas sabem que o assunto é com elas.
Cassio espalha o néctar sobre a tela com uma trincha larga. As cores tomam corpo. O momento é de tensão. As camadas se sucedem. O néctar pinga no chão de cimento ultrapolicromado por anos de processo pictórico. A coisa vai solta.
As telas permanecem na horizontal. Cassio manipula a obra com extremo cuidado. Com muito carinho, resiste à curiosidade de olhar o trabalho, na vertical, até que a tinta seque. Ela não vai escorrer, mas ele é cismado.
É a hora da realização.
Enquanto espera o momento da próxima camada, Cassio respira fundo, acende um cigarro, vai até a cozinha, tira uma bandeja de gelo da Consul, põe quase todas as pedras no isopor e algumas no copo preferido, uísque por cima. Liga o som, senta na cadeira azul de diretor e vai ouvindo jazz, jazz, jazz.
As baterias estão ótimas, o astral é total. Mais umas camadas. Mais testes, mais néctar. A coisa chega ao final. Do dia. O resultado é só na manhã seguinte, com a tinta bem seca.
Cansado, o artista troca de roupa, acende um cigarro e sai para jantar. As baterias descarregam-se suavemente.
A rotina das portas e portões se repete ainda uma vez. Cassio volta para casa e guarda a Brasília verde. Respira fundo, olha o céu escuro. Sente a satisfação formigando, do peito às extremidades. Mais um pouco e está deitado. Liga a FM, dá um tempo, apaga a luz.
Boa noite, C. M.

é isso, por fernando stickel [ 23:39 ]

visita ao baravelli

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Visita dos alunos do curso “Aproximações com a Arte” promovido pela Fundação Stickel, ao estúdio do artista plástico Luis Paulo Baravelli, na Granja Viana.

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Baravelli falou ao grupo sobre a vida de artista, suas características, suas rotinas, seu método de trabalho. Organizadíssimo, ele colocou em seu perfil no Flickr 99% de toda a sua obra, confira aqui.

é isso, por fernando stickel [ 18:44 ]

catálogo fjn


Catálogo da exposição BFNR de Frederico Nasser, dedicado pelo autor a mim e Alice Kalil em 22 Agosto 1970.
A foto da capa foi feita pelo Frederico em um sítio do meu cunhado Jorge Kalil em Atibaia, é ele que aparece mais à frente de camisa listada. Eu estou sem camisa.


Este catálogo da exposição BFNR é um verdadeiro blog pré computador… Assim diz sua ficha técnica:

por Frederico Jayme Nasser foi editado por Editora Matra, S. P., e impresso em off-set na Gráfica Urupês, S. P., em julho de 1970, numa tiragem de 3.000 exemplares, para a exposição Baravelli Fajardo Nasser Resende, Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro/agôsto de 1970 , Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo/ setembro de 1970.
Todos os direitos reservados pelo autor. Fotografias por Fernando Stickel, Wesley Duke Lee, Luís Eduardo Casal del Rey, José Xavier, Manoel Dias de Toledo, Augusto Livio Malzoni e pelo autor.

A foto da casa é de minha autoria. O tempo passa, a cidade transforma-se, os muros sobem, as famílias mudam…


Casa dos pais do Frederico Jayme e Eliza Nasser na Praça Simon Bolivar, por volta de 2012. Estive algumas poucas vezes nesta casa, em uma das visitas Frederico preparava, já atrasado, os desenhos que iriam para a exposição BFNR, a sala de visitas da casa tinha os grandes desenhos espalhados no chão, sobre a mesa, sobre o sofá, e Frederico andava entre eles dando um retoque aqui, outro ali…

é isso, por fernando stickel [ 18:00 ]

campeonato snipe

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CAMPEONATO LESTE BRASILEIRO CLASSE SNIPE
02, 03 e 04 de julho de 2010

ORGANIZAÇÃO
Iate Clube do Rio de Janeiro
Cabo Frio – RJ

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Mario Sacconi e eu viajamos para Cabo Frio na quinta ao meio-dia, e chegamos de volta ao YCSA na Represa de Guarapiranga ontem, às 19:00h. Em condições normais, sem congestionamentos são cerca de sete horas na estrada…
Foram duas regatas na sexta-feira e duas no sábado, as duas do domingo não fizemos para poder preparar o barco para a viagem e chegar cedo.
Nossa posição nas quatro regatas foi de 20º lugar, para um total de 26 participantes, resultado excelente, considerando que no grupo havia competidores com inúmeros troféus internacionais, como Bruno Bethlem e Ivan Valente, além de vários outros “feras”.
Além disso nossas idades somam 117 anos e o peso soma 170kg, muitas das tripulações concorrentes são bem mais jovens e mais leves.
O resultado, além de um brutal aumento na minha experiência e no treino da tripulação, foram dores generalizadas, exaustão total ao final das regatas, noites de doze horas de sono, e os meus dedos parecem salsichas “overstuffed”, duros, doídos, parece que com qualquer coisa eles vão estourar!

perc
Estes foram os percursos que fizemos, um de cada em cada dia. O segundo é mais longo e cansativo, no total são cerca de duas horas de regata/dia.

tarde cabo frio
Final da tarde em Cabo Frio.
Me lembrei de um fantástico fim de semana nos anos setenta, na casa preta do tio Bubi, tio da Gilda e da Monica Vogt, cheio de amigos, a casa explodindo, entre outros minha memória acusa:
Baravelli e Sakae
Zé Resende e Sofia
Fajardo e Renata
Frederico Nasser
Ricardo Alves Lima
Dudi e Gilda
Mané Leão
Monica Vogt
Eu e Alice

é isso, por fernando stickel [ 7:52 ]

baravelli e sakae

bara
Momento Raro: Sr. e Sra. Luis Paulo Baravelli, em um jantar na capital do Estado de São Paulo, fora dos seus domínios da Granja Viana.

Isto equivale mais ou menos em estranheza a um jacaré no Lincoln Center, ou o ectoplasma do Tim Maia visitando o Edir Macedo.

Evento mais raro ainda é a gargalhada da Sra. Baravelli, minha querida colega de FAUUSP, Sakae Ishii. Tudo gravado agora a pouco pela câmera do meu iPhone.

Passam-se décadas, encontramos os amigos fugazmente, e lembramos do tempo em que eu morava em New York e me correspondia com o Baravelli, pena no papel, envelope, selo, correio.
Cada rodada de correspondência trazia, além das abobrinhas costumeiras, o desafio dos anagramas: Quem é? As regras eram simples, tinha que ser alguém do mundo das artes plásticas.
Lembro-me que fizemos entre outros, a Regina Boni e a Luisa Strina, só não me lembro o resultado…
Este foi o brilhante fecho do meu aniversário!

é isso, por fernando stickel [ 0:32 ]