
Sandra e eu no casamento em Sarapuí, 1/6/2024 15:30h
Completo hoje 40 dias da minha cirurgia de descompressão lombar. Estou bem – graças, à minha mulher, Sandra, à equipe médica do Dr. Hallim Féres, às dezenas de enfermeiras(os), cuidadores, amigos, familiares e a todos que, de alguma maneira, hipotecaram sua ajuda à minha causa de rápida recuperação.
Não tenho palavras para agradecer adequadamente, saibam apenas que o apoio de cada um foi decisivo para que eu chegasse até aqui: caminhando (com muito cuidado), retomando o trabalho (com moderação) e aguardando, nos próximos dias, a liberação para as indispensáveis sessões de fisioterapia.
Tudo começou com uma dor forte na perna esquerda, prenunciando uma crise das boas. No sábado, 1º de junho de 2024, Sandra e eu fomos ao casamento da Bruna e do Fernandinho, em Sarapuí. Ao sair do carro, no estacionamento do bufê, tive dificuldade para caminhar no piso inclinado, pouca força na perna esquerda, perdi o equilíbrio e tropecei na escada.
A Dra. Alexandra, minha fisiatra, recebeu rapidamente um vídeo que a Sandra fez da minha caminhada e recomendou internação imediata no Einstein: a compressão do nervo poderia causar perda permanente de força na perna e no pé. Voltamos do casamento, passamos rapidamente em casa para trocar de roupa e, naquela mesma noite, dei entrada na emergência para avaliação cirúrgica. Após a ressonância, ficou claro: o caso era grave, os nervos estavam pressionados.
Na manhã seguinte recebi a visita do neurocirurgião Dr. Felipe Féres, da equipe do Dr. Hallim Féres, que me explicou todo o procedimento com clareza e serenidade. Vieram os exames, a rotina hospitalar, suavizada por um plano de saúde top, excelente atendimento, um bom quarto com uma janela enorme e vista linda — deu até para ver, de relance, o início do jogo São Paulo x Cruzeiro.

A vista do quarto no Einstein, no canto direito o estádio do Pacaembu. 2/6/2024 17:00h

Terça-feira, 4/6/24 06:00h Pronto para entrar na faca.
A cirurgia foi realizada na terça-feira, 4 de junho. O quadro estava bem pior do que o previsto: o que deveria durar duas horas se estendeu por cinco, para “desentupir” meus canos lombares e controlar uma fístula liquórica na medula. A recomendação foi clara: muitos dias em repouso absoluto, na horizontal.
Dias e noites se misturaram. Cama, teto, TV desligada, a janela mostrando dias lindos, tubos embaralhados, o ruído incessante das meias de compressão. Banho na cama, fralda, comadre. Visitas pontuais traziam alívio e distração. Vieram também o medo e a depressão: será que voltaria a andar? A dormir? A viver normalmente? O desconhecimento técnico só aumentava a angústia. Aos poucos, pequenas conquistas: levantar, ir ao banheiro, andar pelo quarto, vislumbrar a volta à normalidade. Assisti a muitos jogos de Roland Garros.
No domingo, após uma noite sem analgésicos, acordei às 4h30. Levantei, fiz xixi e tentei acompanhar meu espírito em suas viagens fora do corpo. Um sono leve, cheio de imagens e aventuras.

Vida na horizontal…
A alta foi marcada para segunda-feira. Caminhei 60 metros no corredor. Sugeriram o uso de bengala – a perna esquerda ainda estava muito fraca. Era o começo.
A saúde é nosso maior bem. Sem ela não há sonhos, nem projetos, nem pensamentos organizados. Às vezes, é preciso uma dura lição no próprio corpo para compreender essa verdade elementar.
E finalmente a alta, na segunda-feira dia 10 junho 2024 às 15h00. Já em casa, iniciei fisioterapia com o Pedro, na clínica da Av. Brasil. Mas logo surgiu uma dor intensa na nuca, sinal de vazamento de líquor pela cicatriz da fístula. A recomendação foi dura: permanecer o máximo de tempo possível na horizontal, deitado o dia inteiro. E assim se passaram dias e noites.

Jimmy & Bolt me fazem companhia nas intermináveis horas na horizontal. Quinta-feira, 13/6/24, 18:30h
Voltei ao Einstein, onde o Dr. Felipe adicionou pontos à cicatriz para fechá-la definitivamente e evitar infecção. A parede da medula precisava cicatrizar para cessar o vazamento. Para reduzir a pressão, só havia um recurso: ficar deitado. O sinal de melhora seria o curativo seco — o que ainda não acontecia.
Senti que envelheci quinze anos em dez dias.
Deitado olhando o teto, o celular, um recorte de céu, aviões passando. O tempo escorrendo, os músculos desaparecendo lentamente.
No domingo, 16 de junho, senti-me um pouco mais confiante. Sandra preparou um almoço maravilhoso: spaghetti à bolonhesa, salada de rúcula, tomatinhos, mussarela e uma taça de Pinot Noir. A pressão na nuca parecia diminuir.
Mas a tão esperada cicatrização não veio. Os cirurgiões decidiram pela colocação de um dreno. Voltei ao Einstein. Na sexta-feira, 19 de junho, às 15h30, a cirurgia foi realizada. Mais tempo na horizontal.
Sandra contratou uma cuidadora para me ajudar nas tarefas mais básicas — inclusive comer. Dias e noites se sucederam, às vezes com Tramal, às vezes só com Novalgina.

Sexta-feira, 19/6/2024 15:30h Cirurgia para colocação do dreno realizada. Mais tempo na horizontal…

Primeira caminhada após uma semana na cama, na horizontal… Sábado, 27/6/24 14:30h

Quarta-feira, 1/7/2024, 14:30h, já em casa, com a reconfortante companhia do Jimmy & Bolt, e os aviões passando…

Negroni no clube
No dia 4 de julho, ainda mancando e com auxílio de bengala, fui com a Sandra ao velório do meu querido amigo Cassio Michalany. Depois, homenageei-o com um Negroni — durante muitos anos, Cassio e eu tomávamos um, pontualmente, em seu estúdio na Vila Nova Conceição, ao som do melhor jazz.
Não foi mole, recebi o apoio constante do meu amor, Sandra, e de muitos amigos, morri de saudades do Jimmy e do Bolt e perdi a noção do tempo. Vi incontáveis jogos de Roland Garros. E, finalmente, voltei para casa.
Bola pra frente.
Obrigado a todos que estiveram ao meu lado.
Sem vocês, tudo isso teria sido simplesmente intolerável.