
Envelope da época. Reparar a existência de endereço telegráfico e telex
Racional Engenharia SA
Pedi demissão da Austin Company no final de 1975. Eu tinha 27 anos, estava no início do meu segundo casamento com a Iris Di Ciommo, e morávamos no meu apartamento da Rua Tucumã, em frente à entrada principal do Esporte Clube Pinheiros.
Desempregado, resolvemos viajar em lua de mel para a Bahia na minha Variant VW amarela. Partimos no domingo, 18 de janeiro de 1976.
Voltamos da viagem e, pouco depois, internei-me no Hospital Nove de Julho, em 17 de fevereiro, para uma cirurgia de postectomia. Ainda em recuperação, recebi um telefonema de Newton Simões, da Racional Engenharia, confirmando minha contratação.
As conversas com a Racional já vinham acontecendo havia algum tempo. Fui contratado como Gerente de Planejamento — um nome elegante para vendedor de projetos de construção.
Logo nas primeiras semanas de trabalho, Newton pediu que eu fizesse as malas para uma viagem a Ribeirão Preto e marcou encontro no aeroporto de Congonhas. Para minha surpresa, embarcamos — Newton, eu e mais duas ou três pessoas — em um jatinho particular. Na chegada, dois ou três Dodge Dart brancos, com o logotipo da Usina Santa Elisa nas portas, já nos aguardavam.
Aos poucos fui entendendo as conexões. Newton era casado com Edilah Biagi, ligada à família de Maurilio Biagi Filho, CEO da usina e um dos fundadores do Programa Nacional do Álcool. A Racional, que tinha o próprio Maurilio entre seus acionistas, pretendia atuar na construção de usinas de açúcar e álcool no modelo “turn-key”.

Conheci então a Usina Santa Elisa, em Sertãozinho, e fiquei impressionado com a escala da operação. O tema começou a me interessar. Na sequência, visitamos as instalações da Renk-Zanini e da Dabi Atlante, e fui me aclimatando àquele universo.
No escritório da Racional, em Pinheiros, eu cuidava de prospecção de clientes, preparação de propostas comerciais e outras atividades correlatas. Também me chamava atenção a comunicação visual da empresa — folhetos, catálogos e materiais institucionais claramente precisavam de um upgrade.

Sugeri ao Newton a contratação de um novo programa de identidade visual e indiquei o escritório Cauduro Martino. A proposta foi aceita e o trabalho realizado. O logotipo branco vertical sobre fundo verde, criado naquela época, continua sendo usado pela empresa até hoje. Coordenei depois toda a aplicação da nova marca: sinalização, folhetos, tapumes de obra e demais materiais.
Propus também outras iniciativas visuais, entre elas Cartão de Natal criados pelos cartunistas Jaguar e Paulo Caruso, além de uma exposição de fotografias de George Love.

No início de 1977 eu já trabalhava havia mais de um ano na empresa, com direito a férias, e Iris estava grávida de três meses da minha primogênita, Fernanda. Fui falar com o Newton e pedi férias. Ele concordou imediatamente. Então completei:
— Newton, acho que vou querer quarenta dias. A Iris está grávida, talvez sejam nossas últimas férias realmente livres…
Ele concordou de novo.
A viagem pela Europa foi maravilhosa. Voltamos num domingo. Na segunda-feira retornei ao escritório e passei o dia cumprimentando colegas, contando histórias da viagem, retomando a rotina.
No final da tarde, Newton me chamou para conversar. Depois de alguns minutos de conversa informal, veio o diálogo, mais ou menos assim:
— Fernando, não vai dar.
— Não vai dar o quê?
— Não vai dar para você continuar…
— Continuar o quê, Newton?
— O seu trabalho aqui. Durante as suas férias apareceram muitos pepinos que você não deixou encaminhados. Sua atuação como gerente foi falha.
— Ah, entendi… Sabe de uma coisa, Newton? Realmente eu não tenho vocação para burocrata. Eu gosto do desafio; quando tudo estabiliza, eu perco o tesão. Vamos fazer o seguinte: você me demite e eu continuo colaborando como autônomo nas áreas de comunicação e criação.
— OK.

Iris e Fernanda
E assim, em menos de dez minutos de conversa cordial, a questão ficou resolvida.
Minha demissão foi formalizada e, simultaneamente, elaboramos um contrato de prestação de serviços para comunicação visual, audiovisual e decoração da sede da empresa com fotografias de George Love, entre outros projetos.
Pouco depois, em 29 de outubro, nasceu minha filha Fernanda. E logo em seguida, ainda em 1977, ao lado do meu colega Norberto (Lelé) Chamma, iniciei o escritório de design visual und.
Nos corredores da Racional fiz muitos amigos, meu colega de trabalho na época Arnaldo Halpern é hoje conselheiro da Fundação Stickel, Ricardo e José Nicolau, Henrique Falzoni, Milton Golombek, e muitos outros.






































