
Em pleno domingo de Carnaval acompanho o desfecho de uma tragédia urbana.
Em frente ao meu prédio há uma lavanderia com espaço de estacionamento. À noite, ali se abrigava um carroceiro e sua carrocinha. De vez em quando ouvíamos gritarias noturnas; diziam que era alcoólatra e bebia pelos bares da redondeza.
Há algum tempo ele passou a dormir na esquina oposta, na calçada do meu prédio. Na quinta-feira observei que ele ficou o dia inteiro deitado, enrolado em seus trapos. Diferentemente da maioria dos catadores de recicláveis, não tinha um cachorro.
Pedi ao meu zelador, Zé Carlos, que verificasse a situação e oferecesse ajuda, inclusive chamando o SAMU. Ele foi até lá, conversou, perguntou se precisava de socorro. O homem recusou: disse que queria apenas ficar quieto.
Assim permaneceu por pelo menos dois dias, largado na calçada ao lado da carrocinha.
Hoje, ao chegar em casa, vi o SAMU. Um vizinho de outro prédio o encontrara imóvel e, sem obter resposta, chamou atendimento. Por volta das 20h foi constatado o óbito.
Tá lá o corpo estendido no chão. Dois policiais militares fazem a guarda, aguardando a perícia. Converso com o zelador do prédio em frente, que veio prestar solidariedade ao conterrâneo falecido — pernambucano, como ele. Faço intimamente uma homenagem. Ninguém merece morrer assim.


O carroceiro e sua humanidade, ursinho de pelúcia grudado em sua carroça.
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