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loteria


O recibo, com recolhimento de imposto

Qual é mesmo a definição de absurdo?

Absurdo é aquilo que contraria a razão, o bom senso e a lógica. É o simplório,ingênuo, tolo, estúpido. O que desafia qualquer explicação plausível.

Pois bem. Essa definição se aplica como uma luva à minha experiência para receber um simples prêmio de loteria.

Quase três meses depois de uma primeira tentativa frustrada, voltei hoje à agência da Caixa Econômica Federal da Vila Nova Conceição para resgatar meu prêmio. Mais uma hora de espera, protocolos, conferências, investigação dos meus dados pessoais, formulários impressos, carimbos, assinaturas e procedimentos de toda espécie. Ao final, descubro pelo recibo que tive um acréscimo patrimonial de R$ 320,00, valor que deverá ser devidamente declarado à Receita Federal.

Tudo isso para receber um prêmio de R$ 320,00


A agência da Caixa e sua inspiradora fachada de arquitetura burocrática, estilo “Não tô nem aí…”

O mais curioso é que o documento emitido pela própria Caixa contém um QR Code que, aparentemente, não serve para absolutamente nada.

Ganhei esse valor em um bolão realizado no site das Loterias Online da Caixa. Imaginei que o crédito seria feito no Mercado Pago, eletronicamente. Engano meu. A instrução era comparecer pessoalmente a uma agência.

Na primeira tentativa, numa segunda-feira pela manhã, fui à agência da Rua Affonso Brás. Entrei num enorme salão branco, quase vazio. Havia apenas uma mesa de atendimento com uma simpática recepcionista e, ao fundo, seis seguranças uniformizados observando a cena.

A atendente recebeu o papel que eu havia impresso em casa, conferiu meu RG, digitou algumas informações e me entregou uma senha para subir ao segundo andar.

Quando finalmente fui chamado, sentei-me diante de um funcionário de meia-idade, camiseta e barba por fazer. Cumprimentei-o. Recebi um cumprimento protocolar em troca. Ele pegou o documento e meu RG e passou a digitar incessantemente por cerca de quinze minutos.

Fiquei intrigado.

Vale lembrar que, para jogar online no site da Caixa, é necessário preencher um cadastro detalhadíssimo. A instituição já possui praticamente todos os dados do apostador, falta só o tipo sanguíneo.

Interrompi o funcionário e perguntei por que ele estava digitando tudo novamente.
Recebi uma resposta vaga.
Pouco depois ele chamou uma colega:
— Edna, dá um pulo aqui.
Edna veio, os dois cochicharam, ele foi até a mesa dela, voltou e continuou a operação.
Perguntei qual era o problema.
— O sistema não está validando.
Nesse momento pensei: Meu Deus, é apenas um prêmio de R$ 320. O sistema precisa validar o quê exatamente?
Sugeri então algo aparentemente revolucionário:
— Não seria mais simples escanear o QR Code?
— Sim, seria mais simples.
Mas não foi isso que aconteceu.
O funcionário digitou manualmente, um por um, os 36 números impressos abaixo do QR Code.
Quando imaginei que o suplício estivesse terminando, recebi nova tarefa: escrever no verso do documento meu nome, RG, CPF, endereço e telefone.Tudo de novo.

Preenchi tudo pacientemente.
Em seguida fui orientado a levantar, mudar de mesa e aguardar. Havia algum problema no sistema e outra pessoa, atrás de um biombo, tentaria resolver a situação.
Passados quase vinte minutos de espera, comecei a registrar no celular aquela experiência que já assumia contornos kafkianos.
Resultado final: depois de quase uma hora dentro de uma agência desconfortável, enfrentando um processo burocrático digno de outra era, saí sem receber meu prêmio.
A orientação final do atendente foi simples:
— O senhor volta outra hora.

Difícil imaginar demonstração mais perfeita de ineficiência administrativa.
A Caixa já possui meus dados. O prêmio foi obtido em seu próprio sistema online. O documento possuía QR Code. O valor era irrisório.
Mesmo assim, o procedimento exigiu deslocamento, espera, redigitação manual de informações já existentes, múltiplas conferências e, ao final, nenhum resultado.
Se Franz Kafka tivesse tentado receber um prêmio de loteria no Brasil, provavelmente desistiria de escrever ficção.

é isso, por fernando stickel [ 9:19 ]

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