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ibm e consequências


Propaganda da IBM Selectric

Esta história começa com um furto.

A Selectric, máquina de escrever elétrica de esfera da IBM foi lançada em 1961, sua tecnologia também serviu de base para os primeiros terminais de computador e processadores de texto da IBM.

Entre as décadas de 1960 e 1980, a Selectric foi tão dominante que, para muitas empresas, “ter uma IBM” significava simplesmente possuir uma máquina de escrever. Seu desenho industrial tornou-se um dos ícones do escritório moderno do século XX, comparável à importância do computador pessoal duas décadas depois.

Nos anos 1970 surgiram modelos mais sofisticados, como a IBM Correcting Selectric II, que incorporava sistemas de correção automática por fita corretiva, que foi o modelo que Lelé e eu compramos, usada.

Lá pelos idos de 1978, tocando o escritório de comunicação visual und que eu havia criado com o Norberto (Lelé) Chamma em 1977, um belo dia, na hora do almoço um gatuno entra no escritório, que ficava na R. Felipe de Alcaçova, na Vila Madalena, e leva nossa jóia da coroa, a Selectric. O ladrão saiu correndo, tropeçou, a IBM voou e o ladrão se evadiu, sem a máquina, que foi recuperada com arranhões.


A Lambretta laranja

Ao saber do furto decidi imediatamente que precisávamos de um muro alto, pois a casa era aberta para a rua, com murinho baixo. Saí na minha Lambretta cor de laranja atrás de um depósito de material de construção, para encomendar areia, cimento, ferro e tijolo. Quando desci a íngreme ladeira da R. Purpurina, entre a Fradique Coutinho e a Mourato Coelho, encontrei um caminhão que subia a rampa e cuja carga de ferros de construção havia “escorrido” para o chão.
O motorista e o ajudante estavam ali sem saber o que fazer, coçando a cabeça. Parei e perguntei:
-Tá sobrando ferro aí?
-Por que, tá precisando quanto?
– Duas barras. (cada uma tem cerca de seis metros de comprimento)
– Pode pegar…
Embalado pela fantástica economia que eu proporcionaria à obra do muro, peguei duas barras no chão, dobrei-as ao meio, passei pelo estepe da Lambretta, amarrei com elástico, e saí arrastando uma espécie de rabo de andorinha com três metros de cada lado da Lambretta.

Subi a Purpurina em primeira marcha, virei à direita na Fradique, tudo ia bem, o ruído dos ferros arrastando no asfalto, me animei, coloquei segunda marcha, já estava no meio do quarteirão, ganhando velocidade na descida, quando um brutal tranco me lançou ao chão. Deitado no asfalto, tonto, arranhado, esfolado, com enorme corte no pé, roupas e sapato rasgado, sem óculos e sem relógio, fui socorrido por “populares”, que gentilmente recolheram meus pertences espalhados e me ajudaram a levantar. Aí entendi o tamanho da minha burrice, o lado direito daquele apêndice metálico que eu arrastava havia sido “mordido” pelo pneu de um carro estacionado, brecou a Lambretta que simplesmente me ejetou. O saldo da brincadeira: Um pé mal costurado no pronto socorro da esquina, que depois inflamou e tive que ir a um cirurgião plástico que abriu tudo de novo, e costurou tudo de novo, uma Lambretta destruída, a obra do muro adiada e uma lição aprendida: Burrice mata!

E a IBM teve que ir para o conserto, para se recuperar do tombo…


Sede da IBM na Rua Tutóia

Logo na sequência, com a máquina de escrever consertada, fui comprar fitas para ela, na recém inaugurada sede da IBM em São Paulo na Rua Tutóia, projeto dos arquitetos Croce, Aflalo e Gasperini. Fui muito mal atendido e relatei o fato em uma carta. Não custa lembrar que na época ainda não existia fax, internet, e-mail, motoboy, etc…

25 de Abril de 1978
und 029/78

Ilmo. Sr.
José Bonifácio de Abreu Amorim
Presidente
IBM do Brasil – Indústria, Máquinas e Serviços Ltda
Av. Presidente Vargas 642 (ICOMAP 824)
Rio de Janeiro RJ

Prezado Senhor,

Quero inicialmente expressar minha satisfação em possuir una máquina de escrever IBM, bem como externar o prazer que tive em conhecer de perto a sede paulista da IBM à Rua Tutóia.
Muito ne surpreenderam no entanto, as experiencias passadas na recepção e seção de vendas a vista da supra citada sede, na minha opinião totalmente incompatíveis com a imagem institucional desta conceituada empresa.
Assim, ao me dirigir à sobreloja, me deparei com una reprodução fiel das nossas mais ineficientes repartições públicas.
Uma fila de “boys” de fazer inveja ao INPS desenbocava num balcão onde funcionários rudes e desprovidos de interesse anotavam o pedido e forneciam una senha gasta.
A simples tarefa de extrair una nota fiscal ao consumidor e entregar uma dúzia de fitas demorou, no meu caso 1 hora.
Ao tentar obter uma indicação quanto a esfera correta que deveria adquirir, uma vez que esta que lhe escreve esta “encavalando”, obti como resposta do funcionário um seco: “Chame a assistência técnica”.
Ao me dirigir a recepção e solicitar o nome e endereço de V. Sa. fui submetido a um polido interrogatório entremeado de consultas telefônicas como se, a priori suspeitassem de una carta-bomba ou similar.
Acredito que os fatos aqui mencimados se constituam de fato numa “bomba” para V. Sa., una vez que profissionais do nivel hierárquico que V. Sa. ocupa sofrem, fruto de preccupações superiores, um distanciamento natural das ocorrencias diárias nas sobrelojas.
Espero apenas que em futuro próximo, eu possa vir a ser atendido em nível compatível à imagem que a IBM projeta no Brasil e no mundo.
Sendo o que se me apresenta para o momento, despeço-me,

Atenciosamente

Fernando Diederichsen Stickel

Norberto Chamma/Fernando Diederichsen Stickel Arquitetos
Rua Felipe de Alcaçova 73 (011)212 4615
05416 São Paulo SP Brasil


Papel carta da und,na primeira versão, com Chamma/Stickel/Arquitetura/Visual. Logo depois reduzimos para apenas o logotipo und

Para minha surpresa, poucos dias depois chegou por carta a resposta do CEO da IBM no período 1969-1979, José Bonifácio de Abreu Amorim, se desculpando pelo ocorrido e oferecendo soluções.
Para mim foi uma vitória no estilo David versus Golias, pois a IBM naquela época tinha o tamanho e poderio equivalente a Apple, Microsoft, Amazon, tudo junto!

é isso, por fernando stickel [ 17:50 ]

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