{"id":556,"date":"2006-07-20T11:24:01","date_gmt":"2006-07-20T14:24:01","guid":{"rendered":"https:\/\/www.stickel.com.br\/atc\/?p=556"},"modified":"2009-04-29T10:15:08","modified_gmt":"2009-04-29T13:15:08","slug":"meus-encontros-com-paik","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/arte\/556","title":{"rendered":"nam june paik"},"content":{"rendered":"<p><img src='https:\/\/www.stickel.com.br\/atc\/uploads\/1883.jpg' \/><br \/>Interessante esta hist\u00f3ria do <a href=\"http:\/\/taste.uol.com.br\/news\/templates\/noticia.asp?idNoticia=5509&#038;secao=Nanquim\">Marcelo Kahns<\/a>, sobre o rec\u00e9m falecido artista <a href=\"http:\/\/www.paikstudios.com\">Nam June Paik:<\/a><\/p>\n<p>&#8220;MEUS ENCONTROS COM PAIK <\/p>\n<p>Antes de conhecer Nam June Paik conheci a sua obra.<br \/>\nEm 1976 eu morava em Col\u00f4nia (Alemanha) e trabalhava no servi\u00e7o de r\u00e1dio da Deutsche Welle, que transmitia em portugu\u00eas para o Brasil, e era junto com a BBC e outras r\u00e1dios o \u00fanico meio de informa\u00e7\u00e3o em um pa\u00eds dominado pela censura dos militares.<br \/>\nEm Col\u00f4nia funciona o Kunstverein, que faz parte do museu da cidade, mas voltado para a arte de vanguarda.O seu diretor, na \u00e9poca, Wulf Herzongerath,era um grande admirador de Paik e, naquele ano, uma grande exposi\u00e7\u00e3o por ele organizada teve Paik como figura central.<br \/>\n\u00a0Paik come\u00e7ou a sua carreira como v\u00eddeo artista na Alemanha junto com Joseph Beuys e outros artistas do FLUXUS, do qual foi se distanciando pouco a pouco at\u00e9 seguir uma carreira solo.<br \/>\nAlguns anos mais tarde, no come\u00e7o da d\u00e9cada de 80, em uma de minhas viagens a New York, em uma tarde ensolarada, durante um vernissage de uma galeria no SoHo, atrav\u00e9s de uma amiga em comum, fui apresentado a Nam June.<br \/>\nO grande artista da v\u00eddeo- arte tinha algo que n\u00e3o partia do racional: ou ele reconhecia a pessoa que entrava em contato com ele ou simplesmente n\u00e3o a levava em considera\u00e7\u00e3o.<br \/>\nNo meu caso a afinidade se deu no primeiro contato e ficamos de nos falar mais tarde.<br \/>\nO que posso me lembrar \u00e9 que conversamos sobre o seu projeto ?Good Morning Mr Orwell?, sobre o qual discutimos longamente, at\u00e9 que ele me ofereceu para apresent\u00e1-lo na televis\u00e3o brasileira.<br \/>\nE o programa realmente foi transmitido pela TV Cultura de S\u00e3o Paulo, tempos depois de ter sido transmitido ao vivo.<br \/>\nNeste programa participavam, entre outros, Laurie Anderson, Joseph Beuys, Salvador Dal\u00ed, Yves Montand, Allen Ginsberg e John Cage.<br \/>\nSegundo Paik esse programa teria sido visto por 33 milh\u00f5es de pessoas, no mundo inteiro.<br \/>\nEm 1987, ao visitar a Documenta, em Kassel (Alemanha) o grande impacto que tive ao visitar a mostra foi a v\u00eddeo &#8211; escultura com 50 monitores e 5 projetores, ?Beuys\/Boice?, que Paik tinha feito em homenagem a um dos grandes te\u00f3ricos e artistas (Joseph Beuys) do s\u00e9culo passado.Era uma instala\u00e7\u00e3o que mostrava o desespero desse grande artista, que tinha falecido poucos meses antes.<br \/>\nA partir da\u00ed o nosso contato foi constante.<br \/>\nAinda em 1987 fui convidado para ser um dos curadores da mostra ?Brazil Projects?(Abril a Junho de 1988), que reunia artistas de todos os quadrantes do Brasil no P.S. 1, (Long Island City, New York) uma das mais prestigiadas institui\u00e7\u00f5es de vanguarda, para um projeto que pretendia pensar o pa\u00eds em v\u00e1rias dimens\u00f5es.<br \/>\nA minha proposta era reunir artistas brasileiros com artistas que trabalhavam em New York: entre eles juntei Laurie Anderson e Nan\u00e1 Vasconcelos e Nam June Paik com Hans Donner.<br \/>\nPaik considerava Donner um dos maiores nomes da arte tecnol\u00f3gica e gostava muito do seu trabalho ? Donner apresentou uma s\u00e9rie de videographics e Paik fez, especialmente para a mostra, um desenho sobre cart\u00e3o onde colou um n\u00famero 22 e escreveu em volta: ?I chose number 22 because in the 22 century Brazil will be really rich?.(eu escolhi o n\u00famero 22 porque no s\u00e9c. 22 o Brasil ser\u00e1 realmente rico).<br \/>\nEmbora esse n\u00famero pudesse ser associado a uma infinidade de refer\u00eancias sobre o Brasil (Semana de Arte Moderna, etc..), na realidade o que Paik fez foi recorrer a um livro japon\u00eas, que tinha lido h\u00e1 muito tempo, onde o autor vaticinava a futura riqueza do pa\u00eds.<br \/>\nQuando cheguei em janeiro de 88 para conversar com Paik sobre a sua participa\u00e7\u00e3o no evento, New York estava passando pela maior onda de frio em d\u00e9cadas. A neve cobria as ruas at\u00e9 quase o joelho, as ruas estavam vazias, n\u00e3o dava para ir a lugar algum.<br \/>\nE quando chego ao apartamento de Paik, 110 Mercer Street, no Soho, a imagem \u00e9 de desola\u00e7\u00e3o: Paik me recebe enrolado em um cobertor, em uma sala g\u00e9lida, sem aquecimento, e com gripe. Tinha acabado de preparar um ch\u00e1, que bebi junto com ele, enquanto l\u00e1 fora a sensa\u00e7\u00e3o de frio chegava a -30\u00ba(nas r\u00e1dios, pessoas do Alasca davam conselhos de como sobreviver naquele frio inusitado para N.Y.).<br \/>\nMesmo no estado em que se encontrava, tinha for\u00e7as para come\u00e7ar uma a\u00e7\u00e3o, ao telefone, entre o pessoal de vanguarda da cidade para ajudar um cineasta underground ?Jonas Mekas &#8211; que estava\u00a0 criando um arquivo de filmes e passava por dificuldades financeiras, ainda maiores do que as dele.<br \/>\nIsso era uma constante em sua vida: era uma pessoa querida na comunidade art\u00edstica por seus gestos desprendidos e por sua disposi\u00e7\u00e3o de ajudar a todos, mesmo quando era ele que precisava de ajuda.<br \/>\nA exposi\u00e7\u00e3o acabou sendo um grande sucesso e a nossa parceria foi \u00e0 frente: Paik tinha me inclu\u00eddo ? juntamente com Hans Donner ? no novo projeto global, ?Wrap around the world? (Embrulhando o mundo) que deveria ser o ponto inicial das Olimp\u00edadas de Seul, no ver\u00e3o de 88.<br \/>\nEsse novo projeto televisivo, que envolveria pa\u00edses em todos os continentes, seria a continua\u00e7\u00e3o dos outros dois realizados por Paik: ?Good Morning Mr. Orwell?, e ?Bye ? Bye Kipling? ? neste \u00faltimo Paik brincava com uma cita\u00e7\u00e3o de Kipling que dizia que o Ocidente e o Oriente nunca iriam se encontrar.Isso tanto n\u00e3o era verdade como Nam June era a pr\u00f3pria encarna\u00e7\u00e3o deste encontro: um coreano que decidiu fazer do mundo a sua casa e juntar todas as diferen\u00e7as poss\u00edveis e imagin\u00e1veis.<br \/>\nQuem estava na parte t\u00e9cnica, organizando as conex\u00f5es entre emissoras de tv do mundo inteiro era uma produtora da PBS americana, Carol Brandenburg, que havia trabalhado com Paik nos projetos anteriores.<br \/>\nPelo Brasil, Hans Donner conseguiu o apoio da TV Globo ? foi durante uma reuni\u00e3o, da qual participei, que o Boni deu carta branca para levar o programa avante.<br \/>\nUm passista de uma escola de samba foi ao est\u00fadio da Globo, no Rio de Janeiro e com as fus\u00f5es de Donner, gravou-se uma seq\u00fc\u00eancia que foi ao ar no dia 10 de setembro juntamente com artistas do mundo inteiro, em um programa que foi visto por milh\u00f5es de espectadores por todo o planeta.<br \/>\nNesse mesmo ano encontrei-me com Paik em Seul, na Cor\u00e9ia do Sul por ocasi\u00e3o do festival cultural organizado para abrir as Olimp\u00edadas daquele ano.<br \/>\nFui v\u00ea-lo em um sal\u00e3o vazio, no centro da cidade, sentado como um Buda, assinando uma s\u00e9rie de serigrafias que ele fazia para poder viver.<br \/>\nVendo-o assim associei a sua imagem aos in\u00fameros budas que ele usava em suas instala\u00e7\u00f5es ? em 1974 ele j\u00e1 havia feito uma TV Buda, onde uma escultura de um buda sentado via a sua pr\u00f3pria imagem numa tv.<br \/>\nO seu senso de humor, mais a iconoclastia do movimento FLUXUS, davam um significado especial \u00e0s suas a\u00e7\u00f5es ? em 1964 ele tinha feito um filme, ?Zen for Film? que depois veio a ser ?Zen for Wind?, onde a sonoridade adquiria o seu lugar.<br \/>\nPaik tinha um interesse especial pela m\u00fasica: sua liga\u00e7\u00e3o com Stockhausen provava isso, bem como as suas performances\/instala\u00e7\u00f5es com a violonista Charlotte Moorman ? em 1960 concebeu uma apresenta\u00e7\u00e3o da ?Sonata ao Luar? com a violinista nua, nunca realizada.Mas Charlotte Moorman, mais \u00e0 frente, o acompanhou em in\u00fameras performances na sua fase mais irreverente.<br \/>\nMas Paik tinha tamb\u00e9m a sua atra\u00e7\u00e3o pela tecnologia: em 1969, juntamente com Shuya Abe, desenvolveu o primeiro sintetizador de v\u00eddeo, fazendo com a imagem o que antes s\u00f3 era poss\u00edvel se realizar com o som.<br \/>\n\u00a0Essa sua capacidade de juntar arte e tecnologia fez com que a Sony entregasse a Paik todo e qualquer equipamento de v\u00eddeo que viria a desenvolver, para que ele pudesse usar esse novo aparelho em suas investiga\u00e7\u00f5es\/cria\u00e7\u00f5es.<br \/>\nO meu \u00faltimo encontro com Paik, mais uma vez n\u00e3o foi com ele presente e sim com a sua participa\u00e7\u00e3o no Pavilh\u00e3o Alem\u00e3o da Bienal de Veneza em junho de 1993.<br \/>\nPor ocasi\u00e3o dessa Bienal, ele e o artista alem\u00e3o Hans Haacke, tomaram conta, literalmente, do espa\u00e7o pertencente \u00e0 Alemanha ? Haacke destruindo o interior do pavilh\u00e3o e Paik mostrando uma s\u00e9rie de constru\u00e7\u00f5es v\u00eddeo\/rob\u00f3ticas.<br \/>\nNaquele ano o pavilh\u00e3o alem\u00e3o levou a medalha de ouro da exposi\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAinda no come\u00e7o dos anos 90 tentei trazer Nam June ao Brasil: tudo estava preparado para uma grande exposi\u00e7\u00e3o, mas infelizmente o pa\u00eds entrou em uma d\u00e9b\u00e2cle econ\u00f4mica e todos os planos foram \u00e1gua abaixo.<br \/>\nNos \u00faltimos anos a doen\u00e7a o atingiu brutalmente, ele teve de se mudar de New York e perdemos contato.<br \/>\nInfelizmente a vida deste grande artista chegou ao fim recentemente, mas o seu legado \u00e9 enorme: ele certamente foi um dos g\u00eanios da ra\u00e7a, uma antena, como dizia Pound em sua classifica\u00e7\u00e3o de artistas ? dif\u00edcil imaginar algu\u00e9m que tenha influenciado a segunda metade do s\u00e9culo passado como Nam June Paik!&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Interessante esta hist\u00f3ria do Marcelo Kahns, sobre o rec\u00e9m falecido artista Nam June Paik: &#8220;MEUS ENCONTROS COM PAIK Antes de conhecer Nam June Paik conheci a sua obra. 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