{"id":43155,"date":"2026-02-12T23:28:01","date_gmt":"2026-02-13T02:28:01","guid":{"rendered":"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/?p=43155"},"modified":"2026-03-01T09:11:33","modified_gmt":"2026-03-01T12:11:33","slug":"cumprimentei-sarney","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/arte\/43155","title":{"rendered":"cumprimentei sarney"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/ja-1.jpg\" alt=\"\" width=\"709\" height=\"845\" class=\"alignleft size-full wp-image-43161\" srcset=\"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/ja-1.jpg 709w, https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/ja-1-126x150.jpg 126w\" sizes=\"(max-width: 709px) 100vw, 709px\" \/><\/p>\n<p>Marco da arquitetura e do urbanismo modernos, a cidade de Bras\u00edlia DF, recebeu o t\u00edtulo de Patrim\u00f4nio Cultural da Humanidade da UNESCO, detendo a maior \u00e1rea tombada do mundo: 112,25 km\u00b2. \u00c9, at\u00e9 hoje, o \u00fanico bem contempor\u00e2neo a receber esta distin\u00e7\u00e3o nesta escala.<\/p>\n<p>O reconhecimento veio em 7 de dezembro de 1987 e teve um protagonista central: O mineiro <em><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Jos%C3%A9_Aparecido_de_Oliveira\">Jos\u00e9 Aparecido de Oliveira<<\/a>\/em> (1929-2007), ent\u00e3o governador do Distrito Federal (1985\u20131988). Foi ele quem liderou o processo de candidatura, mobilizou o Itamaraty, especialistas em patrim\u00f4nio e a pr\u00f3pria UNESCO, articulando t\u00e9cnica e diplomaticamente a defesa da capital brasileira.<br \/>\nJos\u00e9 Aparecido sustentava que Bras\u00edlia n\u00e3o era apenas a sede administrativa do pa\u00eds, mas um marco incontorn\u00e1vel do urbanismo do s\u00e9culo XX \u2014 resultado do Plano Piloto de L\u00facio Costa e do conjunto arquitet\u00f4nico de Oscar Niemeyer.<\/p>\n<p>Para convencer a UNESCO, foi necess\u00e1rio mais do que exaltar a qualidade do projeto original: era preciso demonstrar compromisso concreto com sua preserva\u00e7\u00e3o. Jos\u00e9 Aparecido impulsionou instrumentos legais e diretrizes urban\u00edsticas que asseguraram \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o internacional a integridade do Plano Piloto.<\/p>\n<p>Naquele per\u00edodo, minhas conex\u00f5es mineiras estavam muito ativas. Eu tinha acabado de fazer uma exposi\u00e7\u00e3o em Belo Horizonte, na galeria do <em><a href=\"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/arte\/42536\">Grupo Corpo<\/a><\/em> em 1986, namorava a Helena Bricio e era amigo do Nirlando Beir\u00e3o (1948-2020). O pr\u00f3prio Jos\u00e9 Aparecido me enviou um convite para a cerim\u00f4nia oficial de celebra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/lele-1.jpg\" alt=\"\" width=\"709\" height=\"472\" class=\"alignleft size-full wp-image-43165\" srcset=\"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/lele-1.jpg 709w, https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/lele-1-150x100.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 709px) 100vw, 709px\" \/><br \/>\n<em>Conjunto Residencial da Colina<\/em><\/p>\n<p>Contactei minha amiga e colega da FAUUSP Sylvia Ficher, arquiteta e moradora de Bras\u00edlia, e pedi abrigo \u2014 prontamente concedido. Ela morava no Conjunto Residencial da Colina, no Setor Habitacional de Professores da Universidade de Bras\u00edlia (UnB), projeto do arquiteto\u00a0<em><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Jo%C3%A3o_Filgueiras\">Jo\u00e3o Filgueiras Lima<<\/a>\/em>, carinhosamente conhecido como\u00a0Lel\u00e9. Foi bom conhecer um dos \u00edcones da arquitetura dos anos 60!<\/p>\n<p>Desembarquei com um terno azul-marinho na mala e me preparei para a festa, marcada para o fim da tarde. Peguei um t\u00e1xi e fui me misturar \u00e0s autoridades.<\/p>\n<p>A casa era grande, branca, em um estilo arquitet\u00f4nico que nada tinha a ver com Bras\u00edlia, talvez um neo-colonial-espanhol, alguma coisa indefinida. Encontrei um ou dois arquitetos conhecidos; convers\u00e1vamos e beberic\u00e1vamos enquanto o ambiente ganhava densidade pol\u00edtica. De repente, um burburinho surgiu no extremo oposto do sal\u00e3o. Luzes de cinegrafistas come\u00e7aram a se mover na nossa dire\u00e7\u00e3o. A not\u00edcia correu r\u00e1pido: o presidente havia chegado.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Sarney avan\u00e7ava cumprimentando convidados. A trupe veio se aproximando de n\u00f3s, de repente estavam na nossa frente, Sarney parou diante de mim e estendeu a m\u00e3o. Apertei-a \u2014 mais por protocolo do que por convic\u00e7\u00e3o. A sensa\u00e7\u00e3o foi imediata e desagrad\u00e1vel: m\u00e3o frouxa, \u00famida.<br \/>\nO gesto durou segundos. A cena, no entanto, ficou (infelizmente) gravada na minha mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>A seguir texto da Sylvia Ficher:<\/p>\n<p>Senzala e Casa Grande<br \/>\nPublicado em: 5\u00ba SEMIN\u00c1RIO DE HIST\u00d3RIA DA CIDADE E DO<br \/>\nURBANISMO. Cidades: temporalidades em confronto.<br \/>\nCampinas: PUC\/Campinas, 1998. (CD-ROM)<br \/>\nAp\u00f3s vinte anos de ditadura, per\u00edodo dominado pela pol\u00edtica demag\u00f3gica do BNH,<br \/>\nquando os estudos de an\u00e1lise urbana come\u00e7avam a duras penas a repercutir na<br \/>\npr\u00e1tica urban\u00edstica, eis que os interesses pol\u00edticos do ent\u00e3o governador do Distrito<br \/>\nFederal, Jos\u00e9 Aparecido, levaram a UNESCO a afixar selo de qualidade em Bras\u00edlia,<br \/>\ndeclarada &#8216;Patrim\u00f4nio da Humanidade&#8217; em 1987. Talvez desavisada, a honrada<br \/>\ninstitui\u00e7\u00e3o cultural ent\u00e3o contribu\u00eda para a entroniza\u00e7\u00e3o de um velho modelo \u2013 aquele<br \/>\npreconizado pela Carta de Atenas em 1933 \u2013 h\u00e1 muito avaliado, criticado e descartado<br \/>\npor quem se dedica ao estudo das cidades, de seu impacto sobre o meio ambiente, de<br \/>\nsuas l\u00f3gicas de localiza\u00e7\u00e3o, de suas morfologias, de seus processos de parcelamento<br \/>\ne ocupa\u00e7\u00e3o do solo, de sua economia etc..<br \/>\nComo era de se esperar, por conta do prestigioso t\u00edtulo vinha r\u00e1pido em 1990 o<br \/>\ntombamento pelo Instituto do Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico e Art\u00edstico Nacional, o qual<br \/>\ndescobria, tautologicamente, a excepcionalidade de Bras\u00edlia. [A tautologia \u00e9 evidente:<br \/>\nBras\u00edlia tornara-se excepcional para a UNESCO por que o governador assim havia<br \/>\nafirmado, portanto Bras\u00edlia ser\u00e1 excepcional para o IPHAN por que a UNESCO assim<br \/>\no decretou]. E vinha, mais r\u00e1pido ainda, o descarte do diagn\u00f3stico s\u00e9rio sobre a cidade<br \/>\ne seu entorno feito pelo GT Bras\u00edlia para a pr\u00f3pria UNESCO.<br \/>\nAfinal, o que vem sendo considerado patrim\u00f4nio da humanidade, de que se ocupa o<br \/>\nIPHAN em Bras\u00edlia? Da expans\u00e3o urbana do Distrito Federal, com mais de dois<br \/>\nmilh\u00f5es de habitantes, dispersos insensatamente por \u00e1rea v\u00e1rias vezes maior do que<br \/>\na ocupada por uma cidade tradicional de igual porte nas chamadas &#8216;cidades sat\u00e9lites&#8217;<br \/>\n(os sub\u00farbios de baixa renda e cidades dormit\u00f3rios em Bras\u00edlia) e &#8216;invas\u00f5es&#8217; (as<br \/>\nfavelas brasilienses), onde se repetem as mazelas t\u00edpicas das cidades do 3\u00ba Mundo na<br \/>\ncar\u00eancia de \u00e1gua e esgotos, de pavimenta\u00e7\u00e3o e ilumina\u00e7\u00e3o, de servi\u00e7os m\u00ednimos de<br \/>\nsa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e seguran\u00e7a, de transportes coletivos eficientes e acess\u00edveis, de<br \/>\nequipamentos culturais e de lazer?<br \/>\nOu a casa grande desta grande senzala, onde vive menos de um ter\u00e7o de sua<br \/>\npopula\u00e7\u00e3o, reverentemente conhecida pelos exclu\u00eddos como &#8216;Plano Piloto&#8217;?<br \/>\n\u00c9 este \u00faltimo o patrim\u00f4nio da humanidade. De um s\u00f3 golpe ret\u00f3rico, ao mesmo tempo<br \/>\nem que se refaz a realidade, conta-se uma falsa hist\u00f3ria \u2013 a do sucesso do urbanismo<br \/>\nmodernista para o desenho de cidades, o qual teria criado no &#8216;\u00e1rido&#8217; planalto central<br \/>\num o\u00e1sis urbano, gra\u00e7as \u00e0 sabedoria de suas proposi\u00e7\u00f5es: a cidade linear disposta em<br \/>\njardins (a custos alt\u00edssimos para o bolso do contribuinte), a preponder\u00e2ncia do sistema<br \/>\nvi\u00e1rio sobre a rua tradicional (que cobra seu pre\u00e7o em vidas humanas, na cidade com<br \/>\no mais alto \u00edndice de acidentes de tr\u00e2nsito com v\u00edtimas fatais do pa\u00eds), a indefini\u00e7\u00e3o<br \/>\nentre espa\u00e7o p\u00fablico e privado (que permite aos especuladores o completo descaso<br \/>\npara com o m\u00ednimo previsto em qualquer c\u00f3digo de obras, como soleiras, cal\u00e7adas e<br \/>\nguias), o apogeu do edif\u00edcio isolado (acarretando o aumento desnecess\u00e1rio das<br \/>\ndist\u00e2ncias urbanas e, consequentemente, do custo da infraestrutura e dos transportes<br \/>\ncoletivos) e por fim, mas n\u00e3o menos, a definitiva monumentaliza\u00e7\u00e3o da arquitetura<br \/>\ncotidiana, tornada escultura para g\u00e1udio dos arquitetos formalistas.<br \/>\nHoje, aqueles que obram pela preserva\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria da cultura brasileira \u2013 dos<br \/>\ndocumentos tradicionais da historiografia \u00e0s realiza\u00e7\u00f5es materiais do passado \u2013<br \/>\n2<br \/>\ndeparam-se mais uma vez com a a\u00e7\u00e3o mistificadora das elites brasileiras, mais<br \/>\npreocupadas em preservar \u2013 e reproduzir \u2013 sua falsa consci\u00eancia.<br \/>\nAssim como Ruy Barbosa buscou reescrever nosso passado queimando os registros<br \/>\nda escravid\u00e3o em 1890, a pol\u00edtica oficial de preserva\u00e7\u00e3o no Brasil deixou sempre de<br \/>\nconsiderar as manifesta\u00e7\u00f5es arquitet\u00f4nicas populares. Quem visitar um engenho do<br \/>\nciclo do a\u00e7\u00facar n\u00e3o ir\u00e1 encontrar as marcas de uma unidade produtiva representativa<br \/>\nde nossa economia colonial, dependente e escravista, mas apenas a materializa\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo poderio da oligarquia: a casa grande, uma vez que a senzala h\u00e1 muito<br \/>\ndesapareceu nesta assepsia do passado. Em termos atuais, seria como tomar o<br \/>\ncheck-up do ministro da Sa\u00fade como testemunho da sa\u00fade de nosso povo, a mans\u00e3o<br \/>\nda alta burguesia como testemunho dos padr\u00f5es de habita\u00e7\u00e3o em nossas cidades.<br \/>\nMas se \u00e9 a parcela casa grande da capital federal que se quer proteger, por que tanto<br \/>\nespalhafato, por que recorrer a t\u00edtulos internacionais ou ao tombamento por lei? Afinal<br \/>\nessa Bras\u00edlia do plano piloto n\u00e3o corre risco algum, afora um ou outro quebra-quebra<br \/>\nconduzido pela popula\u00e7\u00e3o &#8216;insens\u00edvel&#8217; no desespero dos protestos dos sem terra, sem<br \/>\nsa\u00fade, sem emprego e demais despossu\u00eddos.<br \/>\nO plano piloto est\u00e1 duramente protegido por uma legisla\u00e7\u00e3o restritiva, que imp\u00f5e uma<br \/>\nsetoriza\u00e7\u00e3o alheia \u00e0 vida real e impede o desenvolvimento de tipologias mais<br \/>\nadequadas \u00e0s necessidades de seus habitantes, e pela propriedade do solo pelo<br \/>\nEstado que, este sim, faz sua especula\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria pr\u00f3pria, entesourando as grandes<br \/>\n\u00e1reas ainda desocupadas ao redor do plano piloto, enquanto mant\u00e9m as popula\u00e7\u00f5es<br \/>\nde baixa renda a dist\u00e2ncias cru\u00e9is. Quanto aos monumentos e espa\u00e7os diferenciados<br \/>\nde Bras\u00edlia, como a Catedral, a Esplanada dos Minist\u00e9rios, os diversos pal\u00e1cios onde<br \/>\nse assentam os donos do poder, estes sim est\u00e3o amea\u00e7ados constantemente, n\u00e3o<br \/>\npela inc\u00faria dos brasilienses mas pela vaidade de seu autor que \u2013 rodeado por sua<br \/>\ncorte pessoal \u2013 incessantemente altera e remenda sua pr\u00f3pria obra com novos<br \/>\nap\u00eandices e penduricalhos.<br \/>\nEm nome da preserva\u00e7\u00e3o da &#8216;modernidade&#8217; de Bras\u00edlia, a preserva\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas<br \/>\nsociais arcaicas de discrimina\u00e7\u00e3o. O novo anexo do Supremo Tribunal, rompendo a<br \/>\nescala e o equil\u00edbrio do principal espa\u00e7o monumental da cidade \u2013 a Pra\u00e7a dos Tr\u00eas<br \/>\nPoderes \u2013 \u00e9 aprovado sem maiores delongas; afinal, tem a griffe Niemeyer. J\u00e1 ali<br \/>\nperto, no combate a uma feira de produtos contrabandeados (cuja exist\u00eancia n\u00e3o ser\u00e1<br \/>\naqui discutida, mas que passa pela informaliza\u00e7\u00e3o da economia brasileira, seu<br \/>\nsubemprego e outros &#8216;avan\u00e7os&#8217; neoliberais, e sobrevive no conv\u00edvio franco do legal e<br \/>\ndo ilegal), a administra\u00e7\u00e3o do Plano Piloto conjura a inadequa\u00e7\u00e3o de sua localiza\u00e7\u00e3o,<br \/>\numa vez que o estacionamento do est\u00e1dio Man\u00e9 Garrincha \u2013 quem diria \u2013 \u00e9 &#8216;tombado&#8217;!<br \/>\nEnquanto a Pra\u00e7a dos Tr\u00eas Poderes \u00e9 desfigurada pela constru\u00e7\u00e3o de um espig\u00e3o<br \/>\ncom detalhes neog\u00f3ticos e de qualidade discut\u00edvel, o que causa alvoro\u00e7o \u00e9 o<br \/>\nestacionamento de um est\u00e1dio de esportes, para o olhar oficioso &#8216;descaracterizado&#8217;<br \/>\npor umas tantas barraquinhas improvisadas e provis\u00f3rias.<br \/>\nAs a\u00e7\u00f5es &#8216;preservacionistas&#8217; do IPHAN, conforme divulgadas nos jornais, s\u00e3o<br \/>\nestarrecedoras. Em defesa das &#8216;caracter\u00edsticas \u00edmpares&#8217; de Bras\u00edlia, s\u00edndicos s\u00e3o<br \/>\narrochados por ousar plantar cercas vivas ao redor de \u00e1reas com &#8216;pilotis&#8217; no esfor\u00e7o de<br \/>\ncriar uma distin\u00e7\u00e3o m\u00ednima entre o p\u00fablico e o privado, e cond\u00f4minos s\u00e3o impedidos<br \/>\nde reformas banais, como a remo\u00e7\u00e3o de lixeiras em obedi\u00eancia \u00e0s exig\u00eancias<br \/>\nsanit\u00e1rias. Fechando de vez o cerco (e a cerca), o IPHAN apoia projeto de lei que<br \/>\npretende transformar as superquadras em condom\u00ednios particulares, dando de<br \/>\npresente, privatizando a custo zero a cidade e instaurando o reinado das empresas<br \/>\nparamilitares de seguran\u00e7a.<br \/>\n3<br \/>\nSurpreendente mesmo \u00e9 a certeza do IPHAN quanto \u00e0s &#8216;caracter\u00edsticas \u00edmpares&#8217; de<br \/>\nBras\u00edlia. Meses atr\u00e1s suas manifesta\u00e7\u00f5es indicavam que o must da cidade \u00e9 o pilotis;<br \/>\nlogo depois, embasado no v\u00e1cuo de sua reflex\u00e3o sobre o urbano, afirmava que vias<br \/>\nexclusivas para \u00f4nibus na W3 s\u00e3o inaceit\u00e1veis. Afinal, que mandato, que expertise<br \/>\nprofunda t\u00eam os senhores do IPHAN, em que comp\u00eandios tanta expertise est\u00e1<br \/>\nexplanada para se arvorarem em guardi\u00f5es do certo ou errado urban\u00edstico de Bras\u00edlia?<br \/>\nMas nada disso ocorre sem conflito, como mostra epis\u00f3dio recente quando, em nome<br \/>\nde obscuros crit\u00e9rios de restaura\u00e7\u00e3o (original versus c\u00f3pia, qui\u00e7\u00e1?), criou-se uma<br \/>\npol\u00eamica em torno da reforma de uma laje da Rodovi\u00e1ria. Correndo por fora, brigando<br \/>\npelo aval de la\u00e7os com os nomes daqueles que conceberam a cidade, grupos de<br \/>\npoder se digladiam encarni\u00e7adamente pelo monop\u00f3lio do direito de mando<br \/>\narquitet\u00f4nico e urban\u00edstico em Bras\u00edlia.<br \/>\nE assim um dos maiores complexos urbanos do pa\u00eds fica sujeito aos des\u00edgnios destes<br \/>\ngrupos que fazem e desfazem a cidade, utilizando o tombamento para sua<br \/>\nlegitima\u00e7\u00e3o, por este justificados em seu elitismo e absolvidos de seu descaso perante<br \/>\nos reais problemas sociais da cidade e do pa\u00eds. Enquanto isso, discuss\u00f5es sobre o<br \/>\nplanejamento de Bras\u00edlia, a\u00e7\u00f5es em sua estrutura, melhorias de suas condi\u00e7\u00f5es de<br \/>\nurbanidade s\u00e3o obstru\u00eddas por discursos superficiais e preconceituosos, que invocam<br \/>\nargumentos de autoridade no trato do fen\u00f4meno urbano. E todos n\u00f3s perdemos a<br \/>\noportunidade de contribuir de fato para a conserva\u00e7\u00e3o daquelas qualidades<br \/>\nindiscut\u00edveis de Bras\u00edlia e para a revis\u00e3o de tantos erros que marcam sua hist\u00f3ria<br \/>\nainda t\u00e3o jovem. De quebra, avan\u00e7a-se em mais um desservi\u00e7o ao debate<br \/>\ncontempor\u00e2neo sobre as cidades brasileiras.<br \/>\nDurmamos tranquilos em um quarto arejado da casa grande. A velha ordem est\u00e1<br \/>\npreservada.<br \/>\nAlgumas fontes<br \/>\nRobert Conrad. Brazilian Slavery. Boston: G. K. Hall, 1977.<br \/>\nMill\u00f4r Fernandes. Visita. Jornal de Bras\u00edlia, p. 11, 27 jun. 1985.<br \/>\nBras\u00edlia\u201a patrim\u00f4nio da humanidade. Jornal de Bras\u00edlia, p. 1 e 12, 8 dez. 1987.<br \/>\nNiemeyer: o monop\u00f3lio de um g\u00eanio questionado. Jornal de Bras\u00edlia, p. 15, 13 dez.<br \/>\n1987.<br \/>\nBras\u00edlia, Patrim\u00f4nio Cultural da Humanidade. Jornal de Bras\u00edlia, Caderno Especial, 1<br \/>\njan. 1988.<br \/>\nRoberto Schwarz. A cidade total. Folha de S\u00e3o Paulo, p. 6\/8 e 6\/9, 27 mar. 1994.<br \/>\nSTJ inaugura sede e empossa Bueno de Souza na presid\u00eancia. Correio Brazilienze, p.<br \/>\n4, 24 jun. 1995.<br \/>\nPresidente do STJ defende sede luxuosa. Folha de S\u00e3o Paulo, p. 1\/8, 24 jun. 1995.<br \/>\nJ\u00e2nio de Freitas. Exemplo de austeridade. Folha de S\u00e3o Paulo, p. 1\/5, 25 jun. 1995.<br \/>\nMaria Elisa Costa. Paisagismo em Bras\u00edlia. Correio Brazilienze, p. 9, 11 jan. 1997. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marco da arquitetura e do urbanismo modernos, a cidade de Bras\u00edlia DF, recebeu o t\u00edtulo de Patrim\u00f4nio Cultural da Humanidade da UNESCO, detendo a maior \u00e1rea tombada do mundo: 112,25 km\u00b2. \u00c9, at\u00e9 hoje, o \u00fanico bem contempor\u00e2neo a receber esta distin\u00e7\u00e3o nesta escala. 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