{"id":41564,"date":"2024-07-06T16:48:03","date_gmt":"2024-07-06T19:48:03","guid":{"rendered":"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/?p=41564"},"modified":"2026-04-09T15:37:23","modified_gmt":"2026-04-09T18:37:23","slug":"41564","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/arte\/41564","title":{"rendered":"c. michalany na arte em s. paulo"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/cassio-5.jpg\" alt=\"\" width=\"836\" height=\"1024\" class=\"alignleft size-full wp-image-41565\" srcset=\"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/cassio-5.jpg 836w, https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/cassio-5-122x150.jpg 122w\" sizes=\"(max-width: 836px) 100vw, 836px\" \/><br \/>\n<em>O artista pl\u00e1stico Cassio Michalany no port\u00e3o de seu est\u00fadio na R. Louren\u00e7o de Almeida, Vila Nova Concei\u00e7\u00e3o. Polaroid do in\u00edcio dos anos 80.<\/em><\/p>\n<p>Abaixo o texto que escrevi sobre o artista, falecido no \u00faltimo dia 4 julho 2024, aos 75 anos, publicado na Revista Arte em S\u00e3o Paulo N\u00ba 1, editada por Luis Paulo Baravelli em 1981.<\/p>\n<p><strong>C. M.<\/strong><br \/>\npor Fernando Stickel<\/p>\n<p><em>\u201cN\u00e3o me interessa a arte, me interessam os artistas.\u201d<\/em><br \/>\nMarcel Duchamp<\/p>\n<p><em>\u201cA vida como toda obra de arte verdadeira \u00e9, apesar de tudo, sempre positiva.\u201d<\/em><br \/>\nBarnett Newman<\/p>\n<p>Bom dia!<br \/>\nO port\u00e3o \u00e9 verde.<br \/>\nO trinco \u00e9 frouxo.<br \/>\nO homem \u00e9 forte.<br \/>\nTrata-se do meu amigo Cassio Michalany. Toco a campainha. \u00c0s vezes ele encaixa bilhetes assim: \u201cVolto daqui a 10 minutos\u201d ou ent\u00e3o \u201cEstou no banho. Toque a campainha e espere um pouco\u201d. \u00c0s vezes s\u00e3o as visitas que deixam recados, na maioria das vezes brancos, no port\u00e3o verde capenga. Quando chove toco a campainha com extremo cuidado. Tenho medo de choque.<br \/>\nCassio zela pela sua intimidade. De vez em quando ele tapa os buracos do port\u00e3o com durep\u00f3xi e pinta de verde por cima. O port\u00e3o \u00e9 na rua. A casa \u00e9 nos fundos.<br \/>\nO p\u00e1tio cimentado tem tufos de capim e uma mancha de musgo no canto. \u00c0s vezes aparece um formigueiro. Cassio deixa as formigas em paz. Elas constroem esculturas no cimento. \u00c0s vezes a chuva leva tudo embora. \u00c0s vezes, quando necess\u00e1rio, vem um amigo que arranca os tufos de capim, deixando tudo limpo. Fica todo mundo suando e toma-se um banho no chuveiro pendurado na parede de reboco amarelado e solto.<br \/>\nDo p\u00e1tio cimentado entra-se na cozinha atrav\u00e9s de um pequeno p\u00f3rtico guarnecido de um prelo in\u00fatil e de um cano d\u2019\u00e1gua que vaza.<br \/>\nQuando a porta da cozinha est\u00e1 aberta, Cassio est\u00e1 em casa. Na cozinha, um fog\u00e3o senil, uma Consul fiel, uma bicicleta e muitos garraf\u00f5es de \u00e1gua mineral, tudo em cima dos ladrilhos hidr\u00e1ulicos. O piso \u00e9 policromado de branco, preto e cinza. A bicicleta \u00e9 branca, mas tem pneus cinza.<br \/>\nCassio toma muita \u00e1gua, sempre. \u201c\u00c9 hidroterapia\u201d, diz ele. De manh\u00e3, \u00e0 tarde e \u00e0 noite, v\u00e1rias vezes por noite. Depois fica suando no travesseiro.<br \/>\nSendo necess\u00e1rio ver trabalhos antigos, convites de exposi\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o esquecer de pagar a conta da luz, Cassio pendura tudo nas paredes da cozinha. \u00c9 o local obrigat\u00f3rio, sede do processo hidr\u00e1ulico.<br \/>\nQuando \u00e9 de manh\u00e3 bem cedo Cassio acorda sozinho e combate a vig\u00edlia in\u00fatil na horizontal. Depois abre a janela, liga a FM, toma \u00e1gua, d\u00e1 um tempo.<br \/>\n\u201cAlimente-se bem, meu filho.\u201d Com essas palavras ecoando h\u00e1 v\u00e1rios anos no seu ouvido, Cassio, o nadador, toma um caf\u00e9 da manh\u00e3 extremamente saud\u00e1vel. Esse \u00e9 um dos seus segredos. E a \u00e1gua. E a postura.<br \/>\nBom, est\u00e1 tudo pronto. \u00c9 a hora do atleta. Cassio fecha a casa, toma a bicicleta e vai nadar fora d\u2019\u00e1gua. S\u00e3o v\u00e1rias voltas. Seu caminho passa invariavelmente em frente \u00e0 minha casa. \u00c0s vezes ele para e conversamos. \u00c0s vezes na cal\u00e7ada, \u00e0s vezes no sof\u00e1. Cassio toma \u00e1gua, meio a meio, \u201cpara n\u00e3o rachar o bloco\u2026\u201d. \u00c0s vezes tem um cafezinho.<br \/>\nEle costuma dar de presente de anivers\u00e1rio para Tati, a minha filha, uma tela de 15 x 15 cm. Um ladrilho tecido e pintado a m\u00e3o. Ela j\u00e1 tem quatro. Um de quando nasceu e mais tr\u00eas dos outros anos. Ela adora. Tio Cassio \u00e9 meu compadre. Um dia Tati pediu: \u201cPapai, vamos pendurar os quadros do tio Cassio?\u201d. Ela determinou os locais e eu preguei. Tudo fora de n\u00edvel.<br \/>\nQuando Cassio corre muito forte na bicicleta, ele solta uns berros danados. Diz que faz bem. Enquanto pedala, observa. Vai olhando as coisas, cheirando os cheiros. Observando.<br \/>\nCom a cabe\u00e7a feita, guarda a bicicleta na cozinha, faz um cafezinho, l\u00ea o jornal, d\u00e1 um tempo. Toma banho, faz a barba e p\u00f5e uma roupa discreta. \u00c0s vezes \u00e9 muito discreta<br \/>\nA\u00ed \u00e9 hora do almo\u00e7o. Pega a Bras\u00edlia verde, abre os port\u00f5es verdes e sai devagar, para n\u00e3o for\u00e7ar a embreagem. Cassio nunca corre, e os carros ficam mal-acostumados.<br \/>\n\u00c0 tarde, com as baterias carregadas quase at\u00e9 a boca, Cassio volta para casa. Abrem-se os port\u00f5es verdes da rua. Abre-se a porta da cozinha. Abrem-se pela primeira vez os port\u00f5es tamb\u00e9m verdes do est\u00fadio. L\u00e1 dentro est\u00e1 quente e silencioso. Enquanto o calor sai e os ru\u00eddos entram, Cassio p\u00f5e uma roupa muito discreta, inteiramente policromada e rasgada em alguns pontos. \u00c9 a roupa de trabalho.<br \/>\nLentamente o momento vai se aproximando. As baterias est\u00e3o explodindo. Acendem-se as luzes do est\u00fadio.<br \/>\n\u00c9 a hora do trabalho.<br \/>\nCassio monta os cavaletes para trabalho horizontal. Os m\u00f3veis e as coisas do est\u00fadio olham tudo com extrema aten\u00e7\u00e3o. L\u00e1 fora, o c\u00e9u adquire tons cinza-r\u00f3seo ou azul-esverdeado, conforme o dia.<br \/>\nAs telas virgens est\u00e3o \u00e1vidas. Cassio prepara as tintas. Os potinhos de iogurte, sorvete e chantili v\u00e3o se enchendo de cores. Ele vai mexendo, testando, adicionando, alterando, at\u00e9 chegar no ponto. \u00c9 mais ou menos como fios de ovos das cores malucas e escuras. \u00c9 o n\u00e9ctar.<br \/>\nEnquanto isso os pinc\u00e9is descansam olhando para o teto, como se n\u00e3o fosse com eles. As trinchas, em compensa\u00e7\u00e3o, ficam meio pensas, olhando de lado. Elas sabem que o assunto \u00e9 com elas.<br \/>\nCassio espalha o n\u00e9ctar sobre a tela com uma trincha larga. As cores tomam corpo. O momento \u00e9 de tens\u00e3o. As camadas se sucedem. O n\u00e9ctar pinga no ch\u00e3o de cimento ultrapolicromado por anos de processo pict\u00f3rico. A coisa vai solta.<br \/>\nAs telas permanecem na horizontal. Cassio manipula a obra com extremo cuidado. Com muito carinho, resiste \u00e0 curiosidade de olhar o trabalho, na vertical, at\u00e9 que a tinta seque. Ela n\u00e3o vai escorrer, mas ele \u00e9 cismado.<br \/>\n\u00c9 a hora da realiza\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEnquanto espera o momento da pr\u00f3xima camada, Cassio respira fundo, acende um cigarro, vai at\u00e9 a cozinha, tira uma bandeja de gelo da Consul, p\u00f5e quase todas as pedras no isopor e algumas no copo preferido, u\u00edsque por cima. Liga o som, senta na cadeira azul de diretor e vai ouvindo jazz, jazz, jazz.<br \/>\nAs baterias est\u00e3o \u00f3timas, o astral \u00e9 total. Mais umas camadas. Mais testes, mais n\u00e9ctar. A coisa chega ao final. Do dia. O resultado \u00e9 s\u00f3 na manh\u00e3 seguinte, com a tinta bem seca.<br \/>\nCansado, o artista troca de roupa, acende um cigarro e sai para jantar. As baterias descarregam-se suavemente.<br \/>\nA rotina das portas e port\u00f5es se repete ainda uma vez. Cassio volta para casa e guarda a Bras\u00edlia verde. Respira fundo, olha o c\u00e9u escuro. Sente a satisfa\u00e7\u00e3o formigando, do peito \u00e0s extremidades. Mais um pouco e est\u00e1 deitado. Liga a FM, d\u00e1 um tempo, apaga a luz.<br \/>\nBoa noite, C. M.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/arte-1.jpg\" alt=\"\" width=\"709\" height=\"450\" class=\"alignleft size-full wp-image-43557\" srcset=\"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/arte-1.jpg 709w, https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/arte-1-150x95.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 709px) 100vw, 709px\" \/><br \/>\n<em>Capa da revista Arte em Snao Paulo 1<\/em><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/arte-2.jpg\" alt=\"\" width=\"709\" height=\"806\" class=\"alignleft size-medium wp-image-43558\" srcset=\"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/arte-2.jpg 709w, https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/arte-2-132x150.jpg 132w\" sizes=\"(max-width: 709px) 100vw, 709px\" \/><br \/>\n<em>Frontisp\u00edcio da revista<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O artista pl\u00e1stico Cassio Michalany no port\u00e3o de seu est\u00fadio na R. 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