{"id":37929,"date":"2021-10-05T16:45:01","date_gmt":"2021-10-05T19:45:01","guid":{"rendered":"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/?p=37929"},"modified":"2025-03-21T15:20:42","modified_gmt":"2025-03-21T18:20:42","slug":"o-dia-em-que-meu-pai-flutuou","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/familia\/37929","title":{"rendered":"o dia em que meu pai flutuou"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-37931\" src=\"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/erico-6.jpg\" alt=\"\" width=\"709\" height=\"709\" srcset=\"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/erico-6.jpg 709w, https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/erico-6-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 709px) 100vw, 709px\" \/><br \/>\n<span style=\"color: #333333;\"><em>Erico Stickel na noite de aut\u00f3grafos de seu livro &#8220;Uma Pequena Biblioteca Particular \u2013 Subs\u00eddios para o Estudo da Iconografia no Brasil&#8221;, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional em 29 de mar\u00e7o de 2004.<\/em><\/span><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-37972\" src=\"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/liv.jpg\" alt=\"\" width=\"709\" height=\"521\" srcset=\"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/liv.jpg 709w, https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/liv-150x110.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 709px) 100vw, 709px\" \/><br \/>\n<span style=\"color: #333333;\"><em>O livro.<\/em><\/span><\/p>\n<p>Meu pai, Erico Jo\u00e3o Siriuba Stickel, foi antes de tudo um bibli\u00f3filo, um amante da cultura e dos livros ou, como ele mesmo gostava de se referir, um \u201cbicho de livro\u201d. Ele era daquelas pessoas que invariavelmente eram duas, ele e o livro que carregava.<br \/>\nMe lembro, quando era pequeno, de acompanh\u00e1-lo no combate \u00e0s pragas que amea\u00e7avam sua biblioteca. Com um canivete, ele alargava os t\u00faneis que atravessavam p\u00e1ginas, cap\u00edtulos, s\u00e9culos, sem respeitar margens, par\u00e1grafos ou pontua\u00e7\u00e3o, e extra\u00eda das profundezas dos volumes as criaturas nojentas que insistiam em arruinar o seu tesouro.<br \/>\nNossa casa, na Rua dos Franceses, em S\u00e3o Paulo, era tomada por estantes de livros na sala, no escrit\u00f3rio, nos corredores, no por\u00e3o, onde houvesse um espa\u00e7o livre. Em lugar de destaque, ficava a Brockhaus Enzyklop\u00e4die, que durante d\u00e9cadas fez o papel de Google ao lado da Encyclopedia Britannica, de dicion\u00e1rios diversos e de muitos outros livros de refer\u00eancia e de arte. A hist\u00f3ria era a mesma em seu escrit\u00f3rio. Sede da Funda\u00e7\u00e3o Stickel, a casinha de vila na Rua Bela Cintra era tamb\u00e9m abarrotada de livros e arquivos.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-37940\" src=\"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/erico-7.jpg\" alt=\"\" width=\"709\" height=\"531\" srcset=\"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/erico-7.jpg 709w, https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/erico-7-150x112.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 709px) 100vw, 709px\" \/><br \/>\n<span style=\"color: #333333;\"><em>A casa inteira tomada pelos livros&#8230;<\/em><\/span><\/p>\n<p>Atrav\u00e9s dos anos, sua biblioteca foi se especializando em autores e estudiosos da iconografia brasileira, dando corpo ao que se transformaria em sua \u00fanica obra, Uma Pequena Biblioteca Particular \u2013 Subs\u00eddios para o Estudo da Iconografia no Brasil. Publicado pela Edusp, em 2004, o livro levou por volta de 30 anos para ser conclu\u00eddo e minha m\u00e3e, Martha, pode-se dizer, \u00e9 coautora, ao menos na permanente companhia na obsessiva leitura e compila\u00e7\u00e3o de fichas, refer\u00eancias, notas etc. em um quarto no piso superior da casa onde mor\u00e1vamos na Rua dos Franceses, com janelas abertas para o jardim e o vale da Rua Almirante Marques Le\u00e3o.<br \/>\nA inten\u00e7\u00e3o de meu pai era escrever um dicion\u00e1rio bibliogr\u00e1fico da iconografia brasileira, \u00e0 semelhan\u00e7a de autores como Rubens Borba de Morais ou Rosemarie Horch, mas baseado em sua pr\u00f3pria biblioteca.<br \/>\nNo in\u00edcio era apenas o fichamento dos livros e publica\u00e7\u00f5es que ele achava interessantes. As fichas em cartolina eram preenchidas \u00e0 m\u00e3o com caneta tinteiro e com o tempo foram crescendo em n\u00famero e complexidade.<br \/>\nAs coisas come\u00e7aram a mudar de figura em 1995, ano iniciado com o nascimento do meu ca\u00e7ula Arthur. Paralelamente ao trabalho como professor de desenho, me dividia entre a edi\u00e7\u00e3o de meu livro aqui tem coisa, com a colabora\u00e7\u00e3o de meu pai, e a gest\u00e3o de seu patrim\u00f4nio. Com a parceria di\u00e1ria, consegui convenc\u00ea-lo a iniciar a sistematiza\u00e7\u00e3o do vasto material de sua pesquisa, o que seria feito com a compra de um computador e a contrata\u00e7\u00e3o da pesquisadora Francis Melvin Lee.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-37946\" src=\"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/erico8.jpg\" alt=\"\" width=\"709\" height=\"431\" srcset=\"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/erico8.jpg 709w, https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/erico8-150x91.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 709px) 100vw, 709px\" \/><br \/>\n<span style=\"color: #333333;\"><em>Francis com minha m\u00e3e, e o local de trabalho.<\/em><\/span><\/p>\n<p>Foram muitos anos de uma minuciosa e cuidadosa rotina, da digita\u00e7\u00e3o do material manuscrito \u00e0s revis\u00f5es e cataloga\u00e7\u00e3o final. Francis se dedicou tamb\u00e9m a organizar e catalogar em pastas um tesouro secreto de meu pai, escondido de todos em v\u00e1rias mapotecas. Eram obras em papel, aquarelas, desenhos e gravuras relacionadas \u00e0 paisagem, \u00e0 gente e aos costumes brasileiros, retratados por viajantes estrangeiros, ao final incorporados ao projeto.<br \/>\nEm 2002, tendo praticamente conclu\u00eddo sua pesquisa, meu pai, com a solidariedade de minha m\u00e3e, doou ao Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de S\u00e3o Paulo os cerca de quatro mil volumes de sua \u201cPequena Biblioteca Particular\u201d. Incorporada ao acervo do IEB como a \u201cBiblioteca Martha e Erico Stickel\u201d, ele a definiria \u2013 em texto introdut\u00f3rio \u00e0 edi\u00e7\u00e3o que viria pela frente \u2013 como uma cole\u00e7\u00e3o desenvolvida \u201cem torno da representa\u00e7\u00e3o art\u00edstica que tivesse basicamente por alvo a paisagem, a cidade e sua arquitetura, o retrato, a fauna e a flora em seu ambiente natural, as festas populares e sacras, o patrim\u00f4nio art\u00edstico e hist\u00f3rico nacional, imagens produzidas ao longo dos tempos por centenas de \u2018viajantes\u2019 e pintores de todos os tipos, aventureiros, fot\u00f3grafos e outros [&#8230;]\u201d.<br \/>\nComo resultado, Uma Pequena Biblioteca Particular se tornou um livro de peso, com cerca de 750 p\u00e1ginas e in\u00fameras reprodu\u00e7\u00f5es a cores de Romulo Fialdini. Sem d\u00favida uma importante obra de refer\u00eancia para os estudiosos do assunto, gosto de folhe\u00e1-lo tamb\u00e9m como um tributo a um desses dedicados autores bissextos, com o trabalho de uma vida indispens\u00e1vel \u00e0 compreens\u00e3o do mundo como o conhecemos \u2013 meu pai.<br \/>\nO amigo Emanoel Ara\u00fajo assim o definiria em pref\u00e1cio ao volume: \u201cErico Stickel poderia ser um colecionador frio, desses que costumam entesourar maravilhas que amealham durante toda uma vida s\u00f3 para sua satisfa\u00e7\u00e3o pessoal. O resultado de suas visitas a exposi\u00e7\u00f5es, livrarias e eventos culturais poderia permanecer como atividade privada e an\u00f4nima como talvez se esperasse de um espartano como ele, pesquisador silencioso e sequioso de seu tempo. Entretanto, seguramente Erico Stickel desde muito cedo alimentou de maneira quase religiosa esta ideia que ora se materializa em forma de livro. Dar a p\u00fablico o resultado de suas constantes e laboriosas incurs\u00f5es pela cultura de nosso pa\u00eds\u201d.<\/p>\n<p>No in\u00edcio de 2003, com 82 anos de idade, meu pai passou a reclamar com frequ\u00eancia de um pigarro que o incomodava j\u00e1 havia algum tempo. Ap\u00f3s visitas a diversos m\u00e9dicos e muitos exames depois, ele foi diagnosticado com um c\u00e2ncer no p\u00e2ncreas. A not\u00edcia devastou a fam\u00edlia, pois era de conhecimento comum que este diagn\u00f3stico equivalia a uma senten\u00e7a de morte. Na sequ\u00eancia, os m\u00e9dicos decidiram que era necess\u00e1ria uma cirurgia explorat\u00f3ria.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-37958\" src=\"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/eric.jpg\" alt=\"\" width=\"709\" height=\"523\" srcset=\"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/eric.jpg 709w, https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/eric-150x111.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 709px) 100vw, 709px\" \/><br \/>\n<span style=\"color: #333333;\"><em>Em recupera\u00e7\u00e3o ap\u00f3s a cirurgia, com minha m\u00e3e e minha irm\u00e3 Ana Maria.<\/em><\/span><\/p>\n<p>Internado no Hospital Alem\u00e3o Osvaldo Cruz no in\u00edcio de mar\u00e7o, a cirurgia evidenciou que um tumor pressionava o es\u00f4fago, da\u00ed o pigarro. A equipe decidiu n\u00e3o toc\u00e1-lo pelo risco de provocar uma hemorragia e\/ou met\u00e1stase, optando por interven\u00e7\u00f5es no entorno para aliviar o stress no es\u00f4fago.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-37944\" src=\"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/erico7.jpg\" alt=\"\" width=\"709\" height=\"531\" srcset=\"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/erico7.jpg 709w, https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/erico7-150x112.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 709px) 100vw, 709px\" \/><br \/>\n<span style=\"color: #333333;\"><em>A comemora\u00e7\u00e3o do anivers\u00e1rio de 83 anos.<\/em><\/span><\/p>\n<p>Ap\u00f3s a recupera\u00e7\u00e3o no hospital, meu pai voltou para casa a tempo de comemorar em 3 de abril, e muito bem disposto, o seu 83\u00ba anivers\u00e1rio. Veio ent\u00e3o a quimioterapia, que no in\u00edcio provocou rea\u00e7\u00f5es muito agressivas, mas tornou-se suport\u00e1vel ap\u00f3s ajustes na dosagem da medica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Pouco a pouco, a vida foi voltando ao normal. T\u00e3o normal quanto poss\u00edvel para algu\u00e9m que recebeu uma senten\u00e7a de morte. Ocorre que meu pai era um ser agn\u00f3stico e sempre se comportou como tal, as quest\u00f5es espirituais n\u00e3o faziam parte de seu universo. Conhecendo este seu lado, aproveitei um dia em que fomos passear no Parque Trianon, um dos locais onde ele gostava de caminhar, e pragmaticamente desferi a pergunta:<br \/>\n\u2013 Ent\u00e3o, pai, o que voc\u00ea quer fazer, quais s\u00e3o as tuas prioridades?<br \/>\nE ele, sem titubear: \u2013 Quero fazer o livro.<br \/>\n\u2013 Ok, pai, vamos fazer o livro!<br \/>\nDe volta ao seu escrit\u00f3rio, na Rua dos Franceses, conversei com a Francis, sua fiel auxiliar, e pedi a ela uma impress\u00e3o do volume em edi\u00e7\u00e3o. Levei a grossa encaderna\u00e7\u00e3o ao professor Plinio Martins Filho, da Editora da Universidade de S\u00e3o Paulo, e contei a ele a hist\u00f3ria.<br \/>\n\u2013 Mas j\u00e1 est\u00e1 pronto? \u2013 ele perguntou, impressionado.<br \/>\n\u2013 Sim, Plinio, est\u00e1 pronto! Falta apenas revis\u00e3o e a edi\u00e7\u00e3o de arte.<br \/>\n\u2013 Vamos fazer!<br \/>\nE assim a obra de uma vida inteira entrou rapidamente na reta final, com meu pai animad\u00edssimo com o interesse da Edusp em seu livro.<\/p>\n<p>Mais ou menos nesta \u00e9poca, fui a uma palestra de Aldaiza Sposati, ent\u00e3o secret\u00e1ria de Assist\u00eancia Social da Prefeita Marta Suplicy, e l\u00e1 conheci Agnes Ezabella. Foi ela quem me alertou que o novo C\u00f3digo Civil passou a permitir a penaliza\u00e7\u00e3o de funda\u00e7\u00f5es que n\u00e3o cumprissem sua miss\u00e3o, exatamente o caso da Funda\u00e7\u00e3o Stickel, institu\u00edda pelos meus pais em 1954 e paralisada havia 30 anos.<br \/>\nLevei a quest\u00e3o a um almo\u00e7o de fam\u00edlia, com a presen\u00e7a de meus pais e meus irm\u00e3os, fiz a explana\u00e7\u00e3o do caso e perguntei o que cada um gostaria de fazer a respeito. Meu pai disse que estava no fim da vida e n\u00e3o tinha mais interesse no assunto. Quando minha m\u00e3e e meus irm\u00e3os tamb\u00e9m n\u00e3o se interessaram, eu ent\u00e3o, tomado por desconhecida coragem, declarei:<br \/>\n\u2013 Eu cuidarei da Funda\u00e7\u00e3o, contanto que ela tenha como miss\u00e3o a arte e a cultura!<br \/>\nTodos concordaram. E assim se iniciou a nova fase da Funda\u00e7\u00e3o Stickel, sob o meu comando.<\/p>\n<p>Terminada a primeira bateria da quimioterapia, como meu pai se sentisse muito bem, planos de viagem foram feitos, pois viajar era uma de suas grandes paix\u00f5es. Em um primeiro ensaio para ver se aguentaria ir para a Europa, ele e minha m\u00e3e foram a Buenos Aires em julho daquele mesmo ano. Aprovado no teste, em outubro viajaram para a Espanha, onde visitaram minha filha Fernanda, que estudava em Barcelona, e para a It\u00e1lia, a Roma e Positano.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-37936\" src=\"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/er1.jpg\" alt=\"\" width=\"709\" height=\"531\" srcset=\"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/er1.jpg 709w, https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/er1-150x112.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 709px) 100vw, 709px\" \/><br \/>\n<span style=\"color: #333333;\"><em>Ana Maria, Joana, Erico, Martha, Antonio no Txai.<\/em><\/span><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-37935\" src=\"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/er2.jpg\" alt=\"\" width=\"709\" height=\"531\" srcset=\"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/er2.jpg 709w, https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/er2-150x112.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 709px) 100vw, 709px\" \/><br \/>\n<span style=\"color: #333333;\"><em>Itacar\u00e9, BA<\/em><\/span><\/p>\n<p>Para comemorar o R\u00e9veillon de 2004, meu pai convidou toda a fam\u00edlia para o Txai Resort, em Itacar\u00e9 na Bahia. De volta a S\u00e3o Paulo, ele e minha m\u00e3e comemoraram, em 6 de janeiro, seu anivers\u00e1rio de 57 anos de casamento. Uma verdadeira b\u00ean\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-37964\" src=\"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/eric2.jpg\" alt=\"\" width=\"709\" height=\"472\" srcset=\"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/eric2.jpg 709w, https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/eric2-150x100.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 709px) 100vw, 709px\" \/><br \/>\n<span style=\"color: #333333;\"><em>Noite de aut\u00f3grafos! O coroamento de 30 anos de trabalho!<\/em><\/span><\/p>\n<p>Um ano depois da cirurgia, aconteceria o grande dia. Na segunda-feira, 29 de mar\u00e7o de 2004, \u00e0s 19h, iniciou-se a noite de aut\u00f3grafos de Uma Pequena Biblioteca Particular \u2013 Subs\u00eddios para o Estudo da Iconografia no Brasil, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional. Posso dizer com certeza que foi a ocasi\u00e3o em que vi meu pai mais alegre, realizado, feliz, sorridente, na companhia da fam\u00edlia, de dezenas de amigos, seus colegas bibli\u00f3filos e \u201cbichos de livro\u201d em geral.<\/p>\n<p>Ele flutuava sobre o solo!<\/p>\n<p>A vida seguiu seu rumo. Em maio, meu pai me presenteou com o lindo Patek Phillippe de bolso, de ouro, que foi do meu av\u00f4 Arthur Stickel. Pouco depois, ele e minha m\u00e3e embarcaram para a Europa, desta vez para Praga, na Rep\u00fablica Checa, de onde seguiram de navio a Berlim, na Alemanha, e finalmente a Paris, na Fran\u00e7a.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-37961\" src=\"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/campos-2.jpg\" alt=\"\" width=\"709\" height=\"532\" srcset=\"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/campos-2.jpg 709w, https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/campos-2-150x113.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 709px) 100vw, 709px\" \/><br \/>\n<span style=\"color: #333333;\"><em>Em Campos do Jord\u00e3o, na mesa Sandra, minha m\u00e3e, Antonio e Joaninha.<\/em><\/span><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-37967\" src=\"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/er2-1.jpg\" alt=\"\" width=\"709\" height=\"502\" srcset=\"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/er2-1.jpg 709w, https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/er2-1-150x106.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 709px) 100vw, 709px\" \/><br \/>\n<span style=\"color: #333333;\"><em>As leituras e o jogo de xadrez.<\/em><\/span><\/p>\n<p>Em julho, na casa de Campos do Jord\u00e3o, jogou xadrez com meu filho Arthur. Em setembro, depois de cerca de 30 sess\u00f5es, a quimioterapia foi suspensa. No in\u00edcio de outubro, os m\u00e9dicos liberaram meu pai para mais uma viagem.<br \/>\nNo dia 13 daquele m\u00eas, o novo Estatuto da Funda\u00e7\u00e3o Stickel foi assinado, oficializando a minha gest\u00e3o. Em seguida, ele e minha m\u00e3e embarcaram para mais uma viagem, outra vez \u00e0 It\u00e1lia, rumo a Veneza, Positano e Roma. Mas n\u00e3o seria uma viagem como as outras.<br \/>\nAcometido de fortes dores em Roma, meu pai consultou o m\u00e9dico do hotel. Ao saber de seu hist\u00f3rico, recomendou Buscopan e a volta imediata ao Brasil. A viagem, gra\u00e7as ao poderoso analg\u00e9sico transcorreu em paz, j\u00e1 em casa em S\u00e3o Paulo meus pais jantaram e assistiram a um filme de Charlie Chaplin. Na manh\u00e3 seguinte, dia 4 de novembro, meu pai n\u00e3o acordou bem, ao chegar na casa encontrei-o dobrado com dores e levei-o imediatamente ao Hospital Alem\u00e3o Oswaldo Cruz.<\/p>\n<p>No dia 7 de novembro, ao levar meu filho Arthur, ent\u00e3o com 9 anos de idade, para visitar o av\u00f4 no hospital, travamos a seguinte conversa no carro:<br \/>\n\u2013 Papi, o que \u00e9 que o vov\u00f4 tem?<br \/>\n\u2013 Um tumor no p\u00e2ncreas.<br \/>\n\u2013 O que \u00e9 p\u00e2ncreas?<br \/>\n\u2013 \u00c9 um \u00f3rg\u00e3o que fica mais ou menos embaixo do est\u00f4mago, no come\u00e7o do intestino.<br \/>\n\u2013 Ele pode morrer disso?<br \/>\n\u2013 Pode, mas ningu\u00e9m sabe quando \u2013 fez-se um longo sil\u00eancio.<br \/>\n\u2013 Papi \u2013 disse ele, chorando. \u2013 Estou muito triste que o vov\u00f4 vai morrer.<br \/>\n\u2013 N\u00e3o chora, Arthur. Estamos todos tristes, mas a gente tem que ser forte e chegar l\u00e1 legal para dar um beijo no vov\u00f4, dar uma for\u00e7a para a vov\u00f3. Estamos torcendo para ele sair do hospital logo.<br \/>\n\u2013 \u00c9, mas eu estou muito triste \u00ac\u2013 ele continuou chorando.<br \/>\n\u2013 Arthur&#8230; \u2013 disse ao chegar no hospital, tamb\u00e9m quase chorando. \u2013 Deixa eu te explicar uma coisa. O vov\u00f4 n\u00e3o consegue comer pela boca, ent\u00e3o eles colocaram uma sonda nele \u2013 expliquei o que era a sonda \u2013 para ele poder se alimentar e ficar mais forte.<br \/>\n\u2013 Mas ele sente o gosto?<br \/>\n\u2013 N\u00e3o, a comida, que \u00e9 uma papinha l\u00edquida, vai direto para o intestino.<br \/>\n\u2013 Mas ele n\u00e3o fica com fome?<br \/>\n\u2013 N\u00e3o, e tamb\u00e9m n\u00e3o sente dor nenhuma porque os m\u00e9dicos est\u00e3o tratando muito bem dele.<br \/>\nChegando ao quarto, meu pai dormia de boca aberta na cadeira. Arthur cumprimentou a tia e recome\u00e7ou a chorar. Deitado no colo da av\u00f3, conversaram um pouco at\u00e9 que ele se acalmasse. Passado um tempo, o av\u00f4 acordou. Arthur deu um beijo no av\u00f4. Conversaram. Assistimos todos a um programa sobre tubar\u00f5es no canal National Geographic.<br \/>\nNa sa\u00edda, Arthur j\u00e1 n\u00e3o chorava mais:<br \/>\n\u2013 Papi, eu quero vir visitar o vov\u00f4 todos os dias.<\/p>\n<p>Em 12 dias de interna\u00e7\u00e3o, os m\u00e9dicos controlaram a obstru\u00e7\u00e3o intestinal e estabilizaram meu pai. Explicando que a doen\u00e7a chegara ao est\u00e1gio terminal, pediram \u00e0 fam\u00edlia uma decis\u00e3o sobre como prosseguir. Ele escolheu ficar em casa enquanto as condi\u00e7\u00f5es fossem favor\u00e1veis, concordando que, se as coisas se complicassem, seria sedado e voltaria ao hospital. No dia 15 de novembro ele voltou para casa.<br \/>\nUm m\u00eas depois, na quinta-feira, 16 de dezembro, a fam\u00edlia estava reunida ao final da tarde ao lado do meu pai, que sofria muito, com dificuldade de se alimentar e mesmo de beber \u00e1gua. Mesmo sem muita clareza, ele nos comunicou que n\u00e3o aguentava mais e queria ser sedado, para minha m\u00e3e ele confidenciou:<br \/>\n&#8211; Eu quero atravessar o rio, quero ir para a outra margem.<br \/>\nPor volta das 22h, tendo ao seu lado minha m\u00e3e, meu irm\u00e3o Neco, meu filho Antonio e eu, meu pai colocou os sedativos na palma da m\u00e3o e olhou-os longamente, em sil\u00eancio. Em seguida, ainda em sil\u00eancio, tomou os rem\u00e9dios. Na manh\u00e3 seguinte, 17 de dezembro, a ambul\u00e2ncia o levou de volta, j\u00e1 inconsciente, para o Hospital Alem\u00e3o Osvaldo Cruz.<br \/>\nNa noite de 23 de dezembro, minha prima Bel Cesar foi visit\u00e1-lo acompanhada do filho, o Lama Michel Rinpoche. Com 12 anos de idade, Michel deixou a fam\u00edlia e foi estudar budismo tibetano na \u00cdndia, se transformando em monge aos 23 anos de idade. A visita foi muito boa, calma. Lama Michel fez uma longa ora\u00e7\u00e3o pedindo a abertura de caminhos para a alma do meu pai se elevar e atravessar mais tranquilamente o \u201cbardo\u201d \u2013 a fronteira entre a vida e a morte, descrita com min\u00facias no budismo.<br \/>\nNo dia 25, a fam\u00edlia toda se reuniu no hospital. Meu pai, totalmente sedado, precisou ser movimentado na cama e eu ajudei o enfermeiro. Foi quando vi as escaras&#8230; Muito triste.<br \/>\nMe impressionou tamb\u00e9m o quanto ele ainda era um homem grande, apesar da magreza. Ao final da tarde, exausto, me despedi de todos e fui para casa. Por volta das 21h, o telefone tocou. Meu pai tinha acabado de falecer no dia de Natal de 2004.<br \/>\nE flutuou pela \u00faltima vez.<\/p>\n<p>Revis\u00e3o do texto: Tato Coutinho<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Erico Stickel na noite de aut\u00f3grafos de seu livro &#8220;Uma Pequena Biblioteca Particular \u2013 Subs\u00eddios para o Estudo da Iconografia no Brasil&#8221;, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional em 29 de mar\u00e7o de 2004. O livro. 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