{"id":33823,"date":"2020-07-09T10:37:06","date_gmt":"2020-07-09T13:37:06","guid":{"rendered":"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/?p=33823"},"modified":"2022-09-29T08:50:49","modified_gmt":"2022-09-29T11:50:49","slug":"de-pessoas-e-suas-influencias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/arte\/33823","title":{"rendered":"de pessoas e suas influ\u00eancias"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-38054\" src=\"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/fjn7.jpg\" alt=\"\" width=\"709\" height=\"678\" srcset=\"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/fjn7.jpg 709w, https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/fjn7-150x143.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 709px) 100vw, 709px\" \/><br \/>\n<span style=\"color: #333333;\"><em>Frederico Nasser e eu, na festa de noivado com Maria Alice Kalil, 1970<\/em><\/span><\/p>\n<p>Somos a soma de n\u00f3s mesmos com tudo o mais e mais um pouco, tudo misturado. Adicione ao seu eu gen\u00e9tico, \u00e0 sua estrutura biol\u00f3gica original, os aprendizados e as circunst\u00e2ncias, as encrencas e os lugares, os amores e as paix\u00f5es, as amizades, as viagens, os livros que leu e naturalmente os muitos erros e os poucos acertos eventualmente cometidos e me ter\u00e1s. Vou tentar explicar. Ou n\u00e3o.<br \/>\nDeixemos que as minhas mem\u00f3rias falem por si, em sua l\u00f3gica peculiar.<\/p>\n<p>No col\u00e9gio Visconde de Porto Seguro, em S\u00e3o Paulo, um \u00fanico professor me deixou saudades, pelo seu brilho, personalidade e integridade: Albrecht Tabor, professor de biologia e cientista maluco\u2026 A mesma coisa aconteceu no Col\u00e9gio Santa Cruz com Flavio Di Giorgi, professor de portugu\u00eas e um s\u00e1bio em geral. Me preparando para o vestibular de arquitetura no Cursinho Universit\u00e1rio em 1968, tive mestres como o artista pl\u00e1stico Luis Paulo Baravelli, que me capturou imediatamente com sua simpatia e a fascinante habilidade de desenhar, e o cineasta Francisco Ramalho Jr., professor de f\u00edsica.<br \/>\nNa mesma \u00e9poca, um amigo me falou de um curso de desenho do professor Frederico Nasser, em uma casinha de vila na Rua da Consola\u00e7\u00e3o, est\u00fadio emprestado por Augusto Livio Malzoni. Procurei o Frederico e iniciamos nossas aulas.<\/p>\n<p><strong>Preciso abrir aqui um par\u00eantese<\/strong>. Frederico Nasser teve uma import\u00e2ncia gigantesca na minha vida e na minha op\u00e7\u00e3o pelas artes pl\u00e1sticas. Foi uma presen\u00e7a instigante, fascinante, generosa, surpreendente, carism\u00e1tica \u2013 um poderoso magneto que despertava conhecimento, provocava sede de saber e, de quebra, irradiava uma atra\u00e7\u00e3o que amalgamou muitas pessoas em um grupo de amigos e amantes das artes que de uma maneira ou de outra gravitaram em torno dele e da Escola Brasil:. Amigos como Augusto Livio Malzoni, Sophia Silva Telles, Dudi Maia Rosa, Baby Maia Rosa, Gilda Vogt, Norma Telles, Lucila Assump\u00e7\u00e3o, Jos\u00e9 Carlos BOI Cezar Ferreira, Leila Ferraz, Wesley Duke Lee, Maciej Babinski, Megumi Yuasa e muitos outros que aparecer\u00e3o aqui e ali, ao longo das pr\u00f3ximas linhas. Fecho aqui o par\u00eantese.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-38047\" src=\"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/fjn0.jpg\" alt=\"\" width=\"461\" height=\"709\" srcset=\"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/fjn0.jpg 461w, https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/fjn0-98x150.jpg 98w\" sizes=\"(max-width: 461px) 100vw, 461px\" \/><\/p>\n<p>Os alunos desenhavam em uma esp\u00e9cie de p\u00e1tio, sob uma p\u00e9rgula. Neste local, Frederico me apresentou Marcel Duchamp, atrav\u00e9s da \u201cb\u00edblia\u201d The Complete Works of Marcel Duchamp, escrita por Arturo Schwarz e publicada pela Thames and Hudson em 1969, e assim selou meu destino, me conectando irremediavelmente \u00e0s artes. L\u00e1 encontrei tamb\u00e9m o meu primo Marcelo Villares e fiquei conhecendo dona Rene, m\u00e3e do Dudi. N\u00e3o sei como eu encontrava tempo para tudo isso, cursando simultaneamente o terceiro colegial, hoje o \u00faltimo ano do ensino m\u00e9dio. Foram tempos muito ricos e intensos!<br \/>\nUm dia precisei fazer um desenho grande e n\u00e3o tinha um lugar adequado. Meu amigo Rubens Mario se prop\u00f4s a ajudar e disse que eu poderia usar a prancheta de um amigo dele, o arquiteto Eduardo Longo. Rubens Mario me garantiu que n\u00e3o haveria problema, que o Eduardo era \u201cgente fina\u201d e l\u00e1 fui eu em uma tarde desenhar no apartamento do arquiteto na rua Bela Cintra. Fiquei maravilhado com o pequeno apartamento todo reformado, com o teto em \u00e2ngulos, um biombo de metal e a porta do banheiro pintada de amarelo parecendo um submarino. Achei o m\u00e1ximo. Logo depois conheci o Eduardo pessoalmente e nos tornamos amigos desde ent\u00e3o.<br \/>\nPouco depois, passei no vestibular da FAUUSP e fui com meu colega Edo Rocha para a Bahia comemorar. Na volta de Salvador, capotamos o meu Fusca 68 bord\u00f4 perto de Jequi\u00e9, mas esta \u00e9 uma outra hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Em 1969, Frederico Nasser mudou seu espa\u00e7o de aulas para um sobrado no Itaim, na rua Pedroso Alvarenga. V\u00e1rios colegas rec\u00e9m-ingressados na FAUUSP desenhavam l\u00e1 tamb\u00e9m, como o Edo Rocha e Cassio Michalany, Plinio de Toledo Piza, Leslie M. Gattegno e Claudio Furtado. Enquanto desenh\u00e1vamos nus femininos dentro de casa, Frederico, muito focado, pintava coisas esquisitas no p\u00e1tio externo\u2026<br \/>\nNo segundo semestre daquele ano, Frederico organizou em um domingo de manh\u00e3 uma visita de seus alunos ao est\u00fadio do mestre Wesley Duke Lee em Santo Amaro. Entrar naquele est\u00fadio era um privil\u00e9gio, fiquei totalmente fascinado. Com sua cultura e charme inigual\u00e1veis, Wesley falou sobre muitas coisas, mas sobretudo de tecnologia e da rec\u00e9m-ocorrida chegada do homem \u00e0 Lua, no dia 20 de julho. Inesquec\u00edvel.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-38050\" src=\"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/fjn2-1.jpg\" alt=\"\" width=\"709\" height=\"709\" srcset=\"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/fjn2-1.jpg 709w, https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/fjn2-1-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 709px) 100vw, 709px\" \/><br \/>\n<span style=\"color: #333333;\"><em>Nas setas vermelhas eu e Maria Alice Kalil em Cabo Frio<\/em><\/span><\/p>\n<p>E veio ent\u00e3o o r\u00e9veillon de 1970 em Cabo Frio, na casa do tio Bubi e da tia Lila, promovido pelo Jo\u00e3o e a Mar\u00edlia Vogt. O esp\u00edrito da coisa era \u201cEU VOU!\u201d. Ningu\u00e9m perguntou se tinha lugar ou convite, o neg\u00f3cio era simplesmente ir! (Os anfitri\u00f5es n\u00e3o gostaram muito\u2026 mas no final deu tudo certo). Foram dias fant\u00e1sticos, mais de 30 amigos e parentes, a casa explodindo, a pequena piscina abarrotada de gente!! Minha mem\u00f3ria acusa a presen\u00e7a, entre outros, dos anfitri\u00f5es Bubi e Lila e dos coanfitri\u00f5es Jo\u00e3o e Marilia, claro, e de Baravelli e Sakae, de Z\u00e9 Resende e Sophia, de Carlos Fajardo e Renata, mais o Frederico, Dudi, Gilda, Ricardo Alves Lima, Monica Vogt, Maria Alice Kalil.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-38052\" src=\"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/fjn4.jpg\" alt=\"\" width=\"709\" height=\"494\" srcset=\"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/fjn4.jpg 709w, https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/fjn4-150x105.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 709px) 100vw, 709px\" \/><\/p>\n<p>Em janeiro de 1970 Frederico Nasser, Dudi, Augusto Livio e eu dividimos um gigantesco quarto no Wellington Hotel da 7\u00aa Avenida em Nova York para um m\u00eas de imers\u00e3o no universo das artes, com direito a trope\u00e7ar em Diane Arbus no restaurante Automat Horn &amp; Hardardt na Rua 57 e visita \u00e0 inesquec\u00edvel exposi\u00e7\u00e3o \u201cNew York Painting and Sculpture: 1940-1970\u201d no Metropolitan Museum of Art, inaugurando o seu Departamento de Arte Contempor\u00e2nea sob curadoria de Henry Geldzahler.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-38051\" src=\"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/fjn3.jpg\" alt=\"\" width=\"709\" height=\"483\" srcset=\"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/fjn3.jpg 709w, https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/fjn3-150x102.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 709px) 100vw, 709px\" \/><br \/>\n<span style=\"color: #333333;\"><em>A Escola Brasil: na Av. Rouxinol 51<\/em><\/span><\/p>\n<p>Pouco depois, na sequ\u00eancia do est\u00fadio na Rua Pedroso Alvarenga, Frederico e os amigos e colegas das artes pl\u00e1sticas Baravelli, Fajardo e Z\u00e9 Resende criaram o Centro de Experimenta\u00e7\u00e3o Art\u00edstica Brasil, na Avenida Rouxinol, em Moema. Conhecida como Escola Brasil:, eu fui um de seus alunos no ano de abertura.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-38063\" src=\"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/fjn6.jpg\" alt=\"\" width=\"709\" height=\"499\" srcset=\"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/fjn6.jpg 709w, https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/fjn6-150x106.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 709px) 100vw, 709px\" \/><br \/>\n<span style=\"color: #333333;\"><em>Futebol dos &#8220;pernetas&#8221;na R. dos Franceses. De costas, Baravelli.<\/em><\/span><\/p>\n<p>Foi tamb\u00e9m em 1970, na quadra multiuso nos fundos da casa dos meus pais, na Rua dos Franceses, que eu e o grupo de amigos da Escola Brasil: inventamos um jogo de futebol. O mais engra\u00e7ado \u00e9 que, se bem me lembro, nenhum dos participantes tinha muita intimidade com o esporte bret\u00e3o \u2013 sempre fui um perna de pau, isso posso garantir! Al\u00e9m de mim e do Neco, meu irm\u00e3o, jogavam Frederico, Jos\u00e9 Carlos BOI, Cassio, Fajardo, Leslie e Baravelli. Fora os \u201cjogadores\u201d, tamb\u00e9m estavam l\u00e1 a Sakae, mulher do Baravelli, e o filho deles, o Z\u00e9.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-38048\" src=\"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/fjn8.jpg\" alt=\"\" width=\"609\" height=\"532\" srcset=\"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/fjn8.jpg 609w, https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/fjn8-150x131.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 609px) 100vw, 609px\" \/><br \/>\n<span style=\"color: #333333;\"><em>Capa do cat\u00e1logo de Frederico Nasser para a exposi\u00e7\u00e3o BFNR, com dedicat\u00f3ria. Eu estou na foto de costas, em primeiro plano.<\/em><\/span><\/p>\n<p>Em agosto do mesmo ano, os incans\u00e1veis Frederico, Baravelli, Fajardo e Z\u00e9 Resende realizaram a poderosa exposi\u00e7\u00e3o BFNR 1970 no MAM Rio de Janeiro, que viria no m\u00eas seguinte para o MACUSP, no pr\u00e9dio da Bienal em S\u00e3o Paulo \u2013 eu apare\u00e7o na capa do cat\u00e1logo do Frederico, de quem fiz alguns retratos para esta mesma edi\u00e7\u00e3o. Fui ao Rio para a inaugura\u00e7\u00e3o da exposi\u00e7\u00e3o e me hospedei \u201ccomme il faut\u201d no apartamento da vov\u00f3 Za\u00edra, de frente para o mar no Posto 6, em Copacabana. Foram dias deliciosos com direito a um jantar no cl\u00e1ssico Antonio\u2019s.<\/p>\n<p>Visitar o est\u00fadio\/oficina do Baravelli na Escola Brasil: era o m\u00e1ximo, assim como seus est\u00fadios particulares, sempre fascinantes, muito bem resolvidos arquitetonicamente, amplos, limpos, organizados. (O mesmo fasc\u00ednio e curiosidade acontecia tamb\u00e9m no novo est\u00fadio do Fajardo, em um por\u00e3o da Rua Pamplona, onde ele tamb\u00e9m dava aulas.)<br \/>\nHavia de tudo nos est\u00fadios do Baravelli, at\u00e9 um pote com unhas cortadas\u2026 Foram muitos os espa\u00e7os ao longo dos anos:<br \/>\n\u2013 Avenida Miruna, de 1967 a 1971;<br \/>\n\u2013 Rua Padre Jo\u00e3o Manoel, esquina com a Oscar Freire, de 1971 a 1974;<br \/>\n\u2013 Rua Pedroso Alvarenga, de 1974 a 1979;<br \/>\n\u2013 Rua Jo\u00e3o Cachoeira, de 1980 a 1984;<br \/>\n\u2013 Granja Viana, 1984 at\u00e9 hoje.<br \/>\nPelo menos duas galerias sa\u00edram das h\u00e1beis m\u00e3os do Baravelli \u2013 a Galeria S\u00e3o Paulo, da Regina Boni, na Rua Estados Unidos, e a Galeria Luisa Strina, aberta em seu segundo est\u00fadio particular, citado na lista ali em cima.<br \/>\nCom acesso pela Rua Padre Jo\u00e3o Manoel, uma escada levava \u00e0 galeria na sobreloja. Passando por um pequeno espa\u00e7o administrativo, chegava-se a um paralelep\u00edpedo de paredes brancas com o ch\u00e3o de tacos de madeira onde, logo \u00e0 esquerda, o \u201cescrit\u00f3rio\u201d da Luisa Strina era nada mais que uma mesinha com telefone e algumas cadeiras confort\u00e1veis. Sentada em seu canto, com as unhas impecavelmente esmaltadas de vermelho, ela recebia os amigos e os clientes, colecionadores, xeretas e desocupados em geral que l\u00e1 ficavam papeando e, naturalmente, comprando!<br \/>\nL\u00e1 encontrei in\u00fameras vezes o meu contraparente Pituca Roviralta, um dos primeiros compradores do meu trabalho.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/eles-1.jpg\" alt=\"\" width=\"709\" height=\"475\" class=\"alignleft size-full wp-image-39544\" srcset=\"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/eles-1.jpg 709w, https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/eles-1-150x100.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 709px) 100vw, 709px\" \/><br \/>\n<em>Frederico Nasser, Dudi Maia Rosa, Carlos Fajardo e Jos\u00e9 Carlos BOI Cezar ferreira<\/em><\/p>\n<p>Em 1971 casei com Maria Alice Kalil e convidei o Frederico Nasser para ser meu padrinho. Durante alguns anos, Frederico frequentou assiduamente nosso apartamento na Rua Hans Nobiling. \u00c9ramos amigos \u00edntimos, ele aparecia com presentes, uma bebida, um desenho do Evandro Carlos Jardim. No apartamento de cima, sempre havia umas festas e acabamos descobrindo que l\u00e1 morava o mafioso Tommaso Buscetta!!<br \/>\nO casamento com a Alice terminou, mudei para um apartamento na Rua Tucum\u00e3, 141, e comecei a namorar a Iris Di Ciommo por volta de 1974.<\/p>\n<p>No enorme apartamento na Avenida Ang\u00e9lica, de frente para a Pra\u00e7a Buenos Aires, onde morava com os pais, dona Rene e Lamartine, Dudi montou um pequeno atelier de gravura. Foi l\u00e1 que ele me apresentou \u00e0 t\u00e9cnica e eu fiz a primeira e \u00fanica gravura da minha carreira \u00ac\u2013 me lembro bem at\u00e9 do dia \u2013 em 10 de agosto de 1972. Obrigado, Dudera!<br \/>\nNeste mesmo ano, Dudi e Gilda se casaram em uma linda festa na casa do Jo\u00e3o e Mar\u00edlia em Osasco.<\/p>\n<p>Um dos integrantes da turma da Escola Brasil:, Xico Le\u00e3o era um doce de pessoa, simp\u00e1tico, reservado, atencioso e, al\u00e9m de tudo, um excelente pintor. Marina, sua filha, muito jovem e delicada, caiu nas gra\u00e7as do professor Frederico Nasser. Quando o namoro evoluiu para o casamento, Frederico me convidou para ser seu padrinho. Felizes com a defer\u00eancia, na quarta-feira 8 de dezembro 1976 Iris e eu embarcamos na minha VW Variant amarela para estarmos pontualmente, \u00e0s oito e meia da noite, na casa dos pais da noiva, Xico e Ziz\u00e1, na Rua Bol\u00edvia.<br \/>\nO casamento se deu em alt\u00edssimo astral. Nos divertimos muito, fiquei b\u00eabado, conversei com todo mundo, foi uma farra! L\u00e1 pelas tantas, encontrei dona Maria Cecilia, minha professora do Kindergarten no Col\u00e9gio Porto Seguro, e me apresentei a ela:<br \/>\n\u2013 D. Maria Cecilia, que prazer!!! A senhora est\u00e1 muito bem!!!<br \/>\nEla me olhou de vi\u00e9s, sem entender direito, e eu prossegui rodopiando\u2026<br \/>\nIris e eu fomos os \u00faltimos a deixar a festa, comigo pilotando alegremente a Variant amarela como se fosse um Porsche. Lembro-me de que, no dia seguinte, repassando a fa\u00e7anha automobil\u00edstica da madrugada, decidi comigo mesmo nunca mais cometer a tolice de pilotar embriagado.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-38053\" src=\"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/fjn5.jpg\" alt=\"\" width=\"709\" height=\"477\" srcset=\"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/fjn5.jpg 709w, https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/fjn5-150x101.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 709px) 100vw, 709px\" \/><br \/>\n<span style=\"color: #333333;\"><em>Pinturas de Cassio Michalany, presente para a afilhada Fernanda.<\/em><\/span><\/p>\n<p>Em 1977, nasceu minha filha Fernanda. Seu padrinho, o Cassio, a presenteou com uma tela de 15 x 15 cm, um ladrilho tecido e pintado a m\u00e3o \u2013 em cada anivers\u00e1rio, ela ganharia mais um. Dois anos depois, nasceu o meu filho Antonio e convidei Frederico Nasser para ser seu padrinho, mas ele n\u00e3o p\u00f4de estar presente ao nascimento.<br \/>\nNa mesma \u00e9poca, Frederico planejava abrir uma livraria. Em uma conversa com Dudi no Guaruj\u00e1 , Claudinho Fernandes, que tamb\u00e9m flertava com a mesma ideia, ficou sabendo dos planos do amigo em comum e os dois acabaram se tornando s\u00f3cios para abrir, em 1978, a Livraria Horizonte.<br \/>\nO im\u00f3vel selecionado na Rua Jesu\u00edno Arruda, 806, quase esquina com a Jo\u00e3o Cachoeira, abrigava originalmente um a\u00e7ougue, mas Baravelli, o homem dos sete instrumentos, transformou o lugar em uma charmosa livraria de tijolinhos \u00e0 vista. A Horizonte acabou virando ponto de encontro dos amigos artistas, sempre uma farra com sua enorme mesa central e poltronas confort\u00e1veis completando o ambiente acolhedor. No andar de cima, Frederico tocava sua editora Ex Libris. Naquela \u00e9poca, eu era s\u00f3cio do Norberto (Lel\u00e9) Chamma na empresa de design gr\u00e1fico und \u2013 assim mesmo, com min\u00fascula \u2013 e produzimos alguns itens gr\u00e1ficos para a livraria.<br \/>\nCerca de dois anos depois, Frederico desmanchou a sociedade com Claudinho e montou uma nova livraria a poucos metros da Horizonte, na Rua Jo\u00e3o Cachoeira, 267 \u2013 a Universo. Tamb\u00e9m com projeto do Baravelli, a execu\u00e7\u00e3o da obra ficou a cargo do Roberto \u201cfaz tudo\u201d, com o ch\u00e3o de tijolo aparente, cortado a 45 graus, dois mezaninos e janelas ilegalmente abertas para a lateral do pr\u00e9dio.<br \/>\nA Universo tinha como vizinhos a CLICK Molduras, de Odila de Oliveira Lee, mulher de William Bowman Lee, pais de Wesley; o est\u00fadio da vez de Baravelli, na sobreloja; e o escrit\u00f3rio de paisagismo de Toledo Piza, Cabral e Ishii, arquitetos associados, na ed\u00edcula.<br \/>\nAlgum tempo depois, a livraria fechou as portas ao p\u00fablico, trabalhando somente com visitas agendadas, agora especializada em livros raros. L\u00e1, Frederico continuou a operar a Editora Ex Libris, lan\u00e7ando em 1987 o not\u00e1vel O Perfeito Cozinheiro das Almas deste Mundo, edi\u00e7\u00e3o fac-s\u00edmile do di\u00e1rio coletivo da gar\u00e7onni\u00e8re de Oswald de Andrade.<br \/>\nNo est\u00fadio em cima da Universo, Baravelli trabalhava \u00e0 noite. Os amigos mais pr\u00f3ximos se davam o direito de chegar, tocar a campainha, subir as escadas e ficar l\u00e1 perturbando o artista. Por vezes, para frear o \u00edmpeto da turma, ele colocava um bilhete na campainha: ESTOU TRABALHANDO \u2013 CAMPAINHA DESLIGADA.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/asp.jpg\" alt=\"\" width=\"709\" height=\"497\" class=\"alignleft size-full wp-image-38065\" srcset=\"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/asp.jpg 709w, https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/asp-150x105.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 709px) 100vw, 709px\" \/><\/p>\n<p>Foi neste espa\u00e7o que, certo dia, Baravelli confidenciou aos amigos:<br \/>\n\u2013 Estou com uma grana, n\u00e3o sei se fa\u00e7o uma revista de arte ou compro um Camaro\u2026<br \/>\nA op\u00e7\u00e3o foi fazer a revista Arte em S\u00e3o Paulo. Muito pragmaticamente, ele fez uma lista dos itens necess\u00e1rios e comprou:<br \/>\n_ Impressora;<br \/>\n_ Prensa de hot stamping para as capas;<br \/>\n_ Encadernadora espiral;<br \/>\n_ Estoque de papel para impress\u00e3o;<br \/>\n_ Estoque de cart\u00e3o para as capas.<br \/>\nEm seguida contratou Lisette Lagnado e Marion Strecker Gomes, duas jovens estudantes de jornalismo, para tocarem a revista. O primeiro n\u00famero saiu em 1981, com um texto meu sobre Cassio Michalany. O \u00faltimo saiu em 1985.<\/p>\n<p>Entrando nos anos 1980, minha vida virou de ponta cabe\u00e7a. Tomei a decis\u00e3o de ser artista pl\u00e1stico em tempo integral, sa\u00ed do escrit\u00f3rio de design gr\u00e1fico und e me separei da Iris, mudando para o apartamento da Rua dos Pinheiros.<br \/>\nFoi um ano estressante, trabalhoso, ca\u00f3tico!<\/p>\n<p>A esta altura, come\u00e7ava a se quebrar o encanto dos anos 1970, criativos e loucos, com os contatos entre aquela grande turma de amigos se espa\u00e7ando, as amizades se esgar\u00e7ando, os filhos nascendo e crescendo, cada um cuidando de sua vida. Foi nessa \u00e9poca que Frederico Nasser iniciou um misterioso processo de se fechar para o mundo. Pouco a pouco, foi evitando o contato social com os amigos e a fam\u00edlia, se isolando mais e mais, sem responder nem mesmo aos telefonemas. Ningu\u00e9m entendia o que estava acontecendo.<br \/>\nMuitos anos depois, andando de carro pelo Itaim, o avistei caminhando na cal\u00e7ada oposta. Parei o carro e corri para ele de m\u00e3o estendida, feliz com o encontro! Frederico me ignorou solenemente e passou reto\u2026 Fiquei ali incr\u00e9dulo, parado com a m\u00e3o estendida, observando ele se afastar totalmente alheio \u00e0 minha presen\u00e7a\u2026<br \/>\nQue Frederico Nasser era aquele?!!<br \/>\nSeu cora\u00e7\u00e3o falharia definitivamente no in\u00edcio de 2020, aos 75 anos de idade. \u00c9 sempre muito triste e dif\u00edcil aceitar a perda de um amigo. O luto e a tristeza que senti naquele momento, na verdade, j\u00e1 vinha sentindo e trabalhando durante quase 40 anos\u2026<\/p>\n<p>Fernando Stickel,<br \/>\n9 de julho de 2020<br \/>\n&#8230;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-38049\" src=\"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/fjn1.jpg\" alt=\"\" width=\"531\" height=\"675\" srcset=\"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/fjn1.jpg 531w, https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/fjn1-118x150.jpg 118w\" sizes=\"(max-width: 531px) 100vw, 531px\" \/><\/p>\n<p>Uma conjun\u00e7\u00e3o muito especial de fatores propiciou a sistematiza\u00e7\u00e3o destas mem\u00f3rias, focadas nos anos 1970, um pouco antes e um pouco depois. Em fevereiro de 2020, faleceu meu grande amigo Frederico Nasser. Em seguida, a pandemia do coronav\u00edrus e a quarentena redefiniriam o mundo como o conhec\u00edamos.<br \/>\nFoi neste contexto que me voltei a arquivos fechados h\u00e1 muitos anos, repassando textos e a memorabilia do per\u00edodo para atualizar minhas mem\u00f3rias \u00ac\u2013 e este blog.<br \/>\nUm documento em particular atuou como poderoso catalisador de lembran\u00e7as, o convite de casamento do Frederico e Marina. Foi fundamental a ajuda dos amigos em v\u00e1rias conversas para ajustar algumas datas, locais e nomes.<br \/>\nDeixo aqui um agradecimento especial para Sandra Pierzchalski, Plinio de Toledo Piza Filho, Claudio Furtado, Iris Di Ciommo, Claudio Fernandes, Mauro Lopes, Monica Vogt Marques, Luis Paulo Baravelli, Cassio Michalany e Jos\u00e9 Resende.<\/p>\n<p>Fernando Stickel,<br \/>\n10 de outubro de 2021<\/p>\n<p>Revis\u00e3o do texto: Tato Coutinho<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Frederico Nasser e eu, na festa de noivado com Maria Alice Kalil, 1970 Somos a soma de n\u00f3s mesmos com tudo o mais e mais um pouco, tudo misturado. 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