{"id":32060,"date":"2019-05-03T14:13:56","date_gmt":"2019-05-03T17:13:56","guid":{"rendered":"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/?p=32060"},"modified":"2025-06-28T08:54:57","modified_gmt":"2025-06-28T11:54:57","slug":"32060","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/arte\/32060","title":{"rendered":"monteiro lobato"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/monteiro-lobato.jpg\" alt=\"\" width=\"709\" height=\"534\" class=\"alignleft size-full wp-image-32061\" srcset=\"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/monteiro-lobato.jpg 709w, https:\/\/stickel.com.br\/atc\/uploads\/monteiro-lobato-150x113.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 709px) 100vw, 709px\" \/><\/p>\n<p>Meu amigo Abbondio chamou hoje minha aten\u00e7\u00e3o para este texto de Monteiro Lobato (1882-1948) escrito h\u00e1 quase um s\u00e9culo atr\u00e1s.<br \/>\nO Brasil pouco mudou, e nada indica que mudar\u00e1, infelizmente&#8230;<br \/>\nUma das maiores cargas tribut\u00e1rias do planeta, e servi\u00e7os p\u00fablicos de quinta categoria parece ser a sina dos brasileiros&#8230; Leia:<\/p>\n<p>NOVO GULLIVER<\/p>\n<p>H\u00e1 lembran\u00e7as da meninice que jamais se apagam do c\u00e9rebro<br \/>\nadulto, mesmo quando esse receptador de impress\u00f5es n\u00e3o consegue,<br \/>\npor fraqueza senil, reter as da v\u00e9spera. Lembro-me de um cromo de<br \/>\nvivas cores, visto aos cinco anos, reclame da linha de coser Coat\u2019s e<br \/>\nn\u00e3o me lembro dos desenhos aleg\u00f3ricos a Cristo publicados nos jornais<br \/>\nna \u00faltima sexta-feira santa. Representava esse cromo um gigante<br \/>\nestirado \u00e0 borda do mar e enleado de mil fios de linha Coat\u2019s; em redor<br \/>\nformigava a legi\u00e3o dos pigmeus amarradores. De m\u00e3os \u00e0 cintura, muito<br \/>\ncontentezinhos, confundiam a imobilidade do gigante, conseq\u00fc\u00eancia do<br \/>\nbom sono que dormia, com a imobilidade da mosca enleada por mil<br \/>\nvoltas da teia de aranha.<br \/>\nMais tarde, quando chegou o belo tempo dos livros de Grimn,<br \/>\nAndersen, S\u00e9gur e outros maravilhadores da imagina\u00e7\u00e3o infantil travei<br \/>\nconhecimento com Jonathan Swift e tive a explica\u00e7\u00e3o do meu cromo<br \/>\nde Coat. Representava Gulliver no pa\u00eds de Lilipute, amarrado durante o<br \/>\nsono de mil cordas liliputianas. Mas Gulliver acordou, estirou os<br \/>\nm\u00fasculos e com um simples espregui\u00e7amento rompeu, com grande<br \/>\nassombro dos locais, toda a amarrilhoca que o prendia.<br \/>\nQuem trepa a um Corcovado imagin\u00e1rio e de l\u00e1 procura ver em<br \/>\nconjunto o Brasil, espanta-se da sua atitude. \u00c9 um gigante deitado e<br \/>\namarrado. Mas n\u00e3o dorme; ofega com a respira\u00e7\u00e3o opressa e faz<br \/>\ndescoordenados movimentos convulsivos para romper o cordame<br \/>\nenleador.<br \/>\nO Gulliver sul-americano principiou a ser amarrado pelos<br \/>\nportugueses, quando Portugal descobriu que em suas veias circulava<br \/>\nouro, o sangue amarelo; e desd\u2019a\u00ed at\u00e9 hoje os homens do cip\u00f3, vulgo<br \/>\nhomens de governo, outra coisa n\u00e3o fizeram, federal, estadual,<br \/>\nmunicipalmente, sen\u00e3o dobrar cip\u00f3s, cordas e fios de arame sobre seus<br \/>\nmembros para que, a salvo de pontap\u00e9s, possam sug\u00e1-lo com as suas<br \/>\ntrombinhas de percevejo.<br \/>\nPortugal s\u00f3 organizou uma coisa no Brasil-col\u00f4nia: o Fisco, isto \u00e9,<br \/>\no sistema de cordas que amarram para que a tromba percevejante<br \/>\nsugue sem embara\u00e7os. Quem l\u00ea as cartas r\u00e9gias e mais literatura<br \/>\nmetropolitana enche-se de assombro diante do maqui\u00e1velico engenho<br \/>\nluso na cria\u00e7\u00e3o de cordas. Cordas tran\u00e7adas de dois, de tr\u00eas, de quatro,<br \/>\nde dez; cordas de c\u00e2nhamo, de crina, de tucum, de tripa; cordas<br \/>\nestrangulat\u00f3rias de espremer o sangue amarelo e cordas de enforcar.<br \/>\nE assim foi at\u00e9 que um portugu\u00eas de g\u00eanio impulsivo se condoeu<br \/>\nda triste sorte do gigante e cortou o cord\u00e3o umbilical que o prendia \u00e0<br \/>\nMetr\u00f3pole, corda mestra, corda m\u00e3e de toda a linda cole\u00e7\u00e3o de cordas<br \/>\nfiscais secund\u00e1rias. E o gigante respirou e viveu feliz, sobretudo no<br \/>\nmeio s\u00e9culo de \u201ccompreens\u00e3o\u201d que o magn\u00e2nimo filho do primeiro<br \/>\nPedro houve por bem outorgar-lhe.<br \/>\nMas n\u00e3o h\u00e1 felicidade que dure mais de meio s\u00e9culo. Uns<br \/>\nbachar\u00e9is formados pela universidade da Lua e uns generais tentados<br \/>\npela serpente da trai\u00e7\u00e3o implicaram-se com a velhice do pr\u00edncipe<br \/>\nmagn\u00e2nimo, acusaram-no de saber quatorze l\u00ednguas, de assistir a<br \/>\nexames de meninos, de boicotar com um c\u00e9lebre l\u00e1pis azul os maus<br \/>\nju\u00edzes, em vez de fazer as coisas interessantes que, quatrienalmente<br \/>\npostos no lugar do velho s\u00e1bio, eles, bachar\u00e9is e generais, fariam. E<br \/>\ndeportaram-no; meteram-no a bordo dum mau navio e:<br \/>\n\u2014 Vai ninar os netos de Victor Hugo. Tu n\u00e3o entendes de lidar<br \/>\ncom o gigante.<br \/>\nO bom velho partiu e os bachar\u00e9is e generais, a olharem-se uns<br \/>\npara outros, sorridentes e gozosos, tomaram conta da casa.<br \/>\nN\u00e3o diremos aqui das conseq\u00fc\u00eancias in\u00fameras da mudan\u00e7a; basta<br \/>\nque as sintamos todos os dias como o supl\u00edcio da gota d\u2019\u00e1gua; diremos<br \/>\nsomente da coisa capital que a rep\u00fablica fez, faz e continuar\u00e1 a fazer.<br \/>\nEstomagada com a liberdade de movimentos do bom gigante, resolveu<br \/>\namarr\u00e1-lo de novo. Foi \u00e0s cartas r\u00e9gias da Metr\u00f3pole e ressuscitou uma<br \/>\na uma todas as cordas e cip\u00f3s fiscais rompidos pelos Pedros;<br \/>\nrecomp\u00f4-las e come\u00e7ou a enlear pachorrentamente o pobre Gulliver.<br \/>\nAmarra os bra\u00e7os, amarra as pernas, amarra as m\u00e3os; amarra,<br \/>\namorda\u00e7a a boca para que n\u00e3o grite \u2014 e foi-se a Constitui\u00e7\u00e3o; amarra,<br \/>\nvenda os olhos para que n\u00e3o veja \u2014 e l\u00e1 se foi a imprensa.<br \/>\nSobre o corpo de Gulliver desceram todos os arrochos. N\u00e3o<br \/>\nbastaram os cip\u00f3s e cordas de inven\u00e7\u00e3o lusa; importaram-se cabos de<br \/>\na\u00e7o, torniquetes complicad\u00edssimos, borzeguins medievais, remodelados<br \/>\npela engenhosidade moderna. O Fisco tornou-se o objetivo supremo da<br \/>\nrep\u00fablica, a meta de todas as suas altas cogita\u00e7\u00f5es. Anualmente se<br \/>\nre\u00fanem, durante meses, centenas de t\u00e9cnicos cuja fun\u00e7\u00e3o \u00e9 uma s\u00f3:<br \/>\ninventar novas torturas fiscais, novos aparelhos de sarjar as carnes e<br \/>\nextorquir sangue \u00e0 v\u00edtima.<br \/>\nGulliver estertora. Todas as suas for\u00e7as emprega-as em<br \/>\ndefender-se das cordas e ventosas que o Congresso torce e engenha. O<br \/>\nSanto Of\u00edcio virou um marqu\u00eas de Sade repartido em bancadas; n\u00e3o se<br \/>\ncontenta em tirar sangue, h\u00e1 que tir\u00e1-lo da maneira mais dolorosa, da<br \/>\nmaneira mais inc\u00f4moda, da maneira mais lesiva ao organismo do bom<br \/>\ngigante. A inven\u00e7\u00e3o do novo borzeguim \u2014 imposto da renda, excede a<br \/>\ntudo quanto saiu da cabe\u00e7a dos inquisidores: a v\u00edtima ignora o que tem<br \/>\nde pagar e se n\u00e3o paga com exatid\u00e3o incide em pena de confisco! E se<br \/>\nem desespero de causa pede ao Fisco que lhe explique o mist\u00e9rio, que<br \/>\nlhe d\u00ea a chave vertical e horizontal do quebra-cabe\u00e7as, o marqu\u00eas de<br \/>\nSade sorri e responde, diagonalmente:<br \/>\n\u2014 Pague com cheque cruzado, e explica com grande ironia de<br \/>\ndetalhes como se toma de uma r\u00e9gua, duma pena molhada em boa tinta<br \/>\ne como se cruza um cheque.<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 criatura neste pa\u00eds que n\u00e3o confesse um des\u00e2nimo infinito.<br \/>\nAs energias do homem que trabalha e produz despendem-se por tr\u00eas<br \/>\nquartos na luta contra a escol\u00e1stica e o sadismo da cipoeira fiscal;<br \/>\nsobra-lhe uma pequena parte para dedicar \u00e0 sua ind\u00fastria. At\u00e9 esfor\u00e7o<br \/>\nmuscular dos dedos o sadismo do fisco lhe rouba. Pela manh\u00e3, ao<br \/>\nacender o primeiro cigarro, tem que gastar o esfor\u00e7o de duas unhadas<br \/>\npara romper o selo com que o fisco tranca as caixas de f\u00f3sforos e os<br \/>\nma\u00e7os de cigarro.<br \/>\nEste engenhoso sistema de tortura tem em vista uma coisa s\u00f3:<br \/>\npermitir que sobre o corpo do gigante a vermina duma parasitalha<br \/>\ninfinita engorde em dolce far niente, como o carrapato engorda no<br \/>\ncouro do boi pesteado.<br \/>\nVermina ininteligente! Consultasse ela os carrapatos e receberia<br \/>\ndeles um conselho salutar:<br \/>\n\u2014 \u00c9 perigoso levar a suc\u00e7\u00e3o a grau extremo; morre o boi, e com<br \/>\nele a parasitalha.<br \/>\nSer\u00e1 que nem o instinto da conserva\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria consiga meter um<br \/>\nraio de intelig\u00eancia nos miolos do triatoma megista?<\/p>\n<p>Na Antev\u00e9spera<br \/>\nRea\u00e7\u00f5es Mentais dum Ing\u00eanuo<br \/>\nMonteiro Lobato<\/p>\n<p>Companhia Editora Nacional<\/p>\n<p>S\u00e3o Paulo<br \/>\n1933<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Meu amigo Abbondio chamou hoje minha aten\u00e7\u00e3o para este texto de Monteiro Lobato (1882-1948) escrito h\u00e1 quase um s\u00e9culo atr\u00e1s. 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