{"id":3126,"date":"2007-06-17T01:12:13","date_gmt":"2007-06-17T04:12:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.stickel.com.br\/atc\/coisas\/3126"},"modified":"2007-06-17T01:12:13","modified_gmt":"2007-06-17T04:12:13","slug":"brotinho-indocil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/coisas\/3126","title":{"rendered":"brotinho ind\u00f3cil"},"content":{"rendered":"<p>Brotinho Ind\u00f3cil &#8211; Vinicius de Moraes (1966)<\/p>\n<p>A insist\u00eancia daqueles chamados j\u00e1 estava me enchendo a paci\u00eancia (isto foi h\u00e1 alguns anos). Toda a vez era a mesma voz infantil e a mesma teimosia:<br \/>\n\u2014 Mas eu nunca vou \u00e0 cidade, minha filha. Porque \u00e9 que voc\u00ea n\u00e3o toma ju\u00edzo e n\u00e3o esquece essa bobagem&#8230;<br \/>\nA resposta vinha clara, pr\u00e1tica, persuasiva:<br \/>\n\u2014 Olha que eu sou um broto muito bonitinho&#8230; E depois, n\u00e3o \u00e9 nada do que voc\u00ea pensa n\u00e3o, seu bobo. Eu quero s\u00f3 que voc\u00ea autografe para mim a sua &#8220;Antologia Po\u00e9tica&#8221;, morou?<br \/>\nMorar eu morava. \u00c9 danadamente dif\u00edcil ser indelicado com uma mulher, sobretudo quando j\u00e1 se facilitou um bocadinho. Aventei a hip\u00f3tese:<br \/>\n\u2014 Mas. . . e se voc\u00ea for um bagulho horr\u00edvel? N\u00e3o \u00e9 chato para n\u00f3s ambos? A risada veio l\u00edmpida como a pr\u00f3pria verdade enunciada:<br \/>\n\u2014 Sou uma gracinha.<br \/>\nMnhum &#8211; mnhum. Comecei a sentir-me nojento, uma esp\u00e9cie de Nabokov &#8220;avant-la-lettre&#8221;, com aquela Lolita de araque a querer arrastar-me para o seu mundo de ninfete. N\u00e3o, resistiria.<br \/>\n\u2014 Adeus. V\u00ea se n\u00e3o telefona mais, por favor. . .<br \/>\n\u2014 Adeus. Espero voc\u00ea \u00e0s 4, diante da ABI. Quando voc\u00ea vir um brotinho lindo voc\u00ea sabe que sou eu. Voc\u00ea, eu conhe\u00e7o. Tenho at\u00e9 retratos seus. . .<br \/>\nN\u00e3o fui, \u00e9 claro. Mas o telefone no dia seguinte tocou.<br \/>\n\u2014 Ingrato . . .<br \/>\n\u2014 Onde \u00e9 que voc\u00ea mora, hein?<br \/>\n\u2014 Na Tijuca. Por qu\u00ea?<br \/>\n\u2014 Por nada. Voc\u00ea n\u00e3o desiste, n\u00e3o \u00e9?<br \/>\n\u2014 Nem morta.<br \/>\n\u2014 Est\u00e1 bem. S\u00e3o 3 da tarde; \u00e0s 4 estarei na porta da ABI. Se quiser dar o bolo, pode dar. Tenho de toda maneira que ir \u00e0 cidade.<br \/>\n\u2014 Malcriado. . . Voc\u00ea vai cair duro quando me vir.<br \/>\nDesta vez fui. E qual n\u00e3o \u00e9 minha surpresa quando, \u00e0s 4 em ponto, vejo aproximar-se de mim a coisinha mais linda do mundo: um pouco mais de um metro e meio de mulherzinha em uniforme colegial, saltos baixos e rabinho de cavalo, rosto lavado, olhos enormes: uma gra\u00e7a completa. Teria, no m\u00e1ximo, 13 anos. Apresentou-me sorridente o livro :<br \/>\n\u2014 P\u00f5e uma coisa bem bonitinha para mim, por favor?&#8230;<br \/>\nE como eu lhe respondesse ao sorriso:<br \/>\n\u2014 Ent\u00e3o, est\u00e1 desapontado?<br \/>\nEscrevi a dedicat\u00f3ria sem dar-lhe trela. Ela leu atentamente, teve um muxoxo:<br \/>\n\u2014 Ih, que s\u00e9rio . . .<br \/>\nEmbora morto de vontade de rir, contive-me para retorquir-lhe:<br \/>\n\u2014 \u00c9, sou um homem s\u00e9rio. E da\u00ed?<br \/>\nO &#8220;e da\u00ed&#8221; \u00e9 que foi a minha perdi\u00e7\u00e3o. Seus olhos brilharam e ela disse r\u00e1pido:<br \/>\n\u2014 Da\u00ed que os homens s\u00e9rios podem muito bem levar brotinhos ao cinema&#8230;<br \/>\nOlhei-a com um falso ar severo:<br \/>\n\u2014 Voc\u00ea est\u00e1 vendo aquele Caf\u00e9 ali? Se voc\u00ea n\u00e3o desaparecer daqui imediatamente eu vou \u00e0quele Caf\u00e9, ligo para sua m\u00e3e ou seu pai e digo para virem buscar voc\u00ea aqui de chinelo, voc\u00ea est\u00e1 ouvindo? De chinelo!<br \/>\nEla me ouviu, parada, um arzinho meio triste como o de uma menina a quem n\u00e3o se fez a vontade. Depois disse, devagar, olhando-me bem nos olhos:<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o sabe o que est\u00e1 perdendo. . .<\/p>\n<p>E saiu em frente, desenvolvendo, para o lado da Avenida.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Brotinho Ind\u00f3cil &#8211; Vinicius de Moraes (1966) A insist\u00eancia daqueles chamados j\u00e1 estava me enchendo a paci\u00eancia (isto foi h\u00e1 alguns anos). Toda a vez era a mesma voz infantil e a mesma teimosia: \u2014 Mas eu nunca vou \u00e0 cidade, minha filha. 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