{"id":249,"date":"2006-12-14T17:54:01","date_gmt":"2006-12-14T20:54:01","guid":{"rendered":"https:\/\/www.stickel.com.br\/atc\/?p=249"},"modified":"2008-05-10T19:05:06","modified_gmt":"2008-05-10T22:05:06","slug":"27-bienal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/arte\/249","title":{"rendered":"27\u00aa bienal"},"content":{"rendered":"<p><img src='https:\/\/www.stickel.com.br\/atc\/uploads\/2128.jpg' \/><br \/>Errei meu c\u00e1lculo e perdi a exposi\u00e7\u00e3o dos concretistas no MAM, paci\u00eancia. Fui ent\u00e3o \u00e0 27\u00aa Bienal de S\u00e3o Paulo, entrada gr\u00e1tis, e o \u00fanico prazer que l\u00e1 obtive foi um Eskibon na sa\u00edda por R$3,50.<\/p>\n<p>Rala, irrelevante, fraca, esta Bienal \u00e9 totalmente in\u00fatil. \u00c9 \u00f3bvio que deve haver uma ou duas p\u00e9rolas perdidas l\u00e1 no meio, mas mesmo o Marcel Broodthaers ficou ralo e perdido. Triste, drenado de energias, c\u00e1 estou desiludido com (esta) arte. E de quebra triste com (este) Brasil. Por ser totalmente oportuno, e como de costume l\u00facido e bem escrito, vai o artigo do Arnaldo Jabor sobre o tema:<\/p>\n<p>&#8220;<em>A arte deve ser a exalta\u00e7\u00e3o da vida &#8211; Caderno 2 &#8211; 12\/12\/2006<\/p>\n<p>Ao apagar das luzes, fui ver a Bienal. J\u00e1 tinha visto e fui de novo. E confirmei a primeira impress\u00e3o. A sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 a de ru\u00ednas ou de despejos da civiliza\u00e7\u00e3o. Os trabalhos repetem os mesmos c\u00f3digos e repert\u00f3rios: terra arrasada, materiais brutos e sujos, desarmonia, assimetria, uma busca deliberada da fei\u00fara, uma clara vergonha de ser ?arte?, vergonha de provocar sentimentos de prazer. A frui\u00e7\u00e3o po\u00e9tica \u00e9 impedida, como se o prazer fosse uma coisa reacion\u00e1ria, ?alienada?, ignorando o ?mal do mundo?, que tem que ser esfregado na cara do espectador para que ele n\u00e3o esque\u00e7a o horror social e pol\u00edtico que nos assola.<\/p>\n<p>\u00c9 como se a pr\u00f3pria arte fosse uma babaquice a ser evitada. Numa entrevista, uma das te\u00f3ricas da arte contempor\u00e2nea, Claire Bishop, diz na Folha : ?n\u00e3o defendo uma arte da transcend\u00eancia. O paradigma rom\u00e2ntico foi desmantelado no s\u00e9culo 20, porque apresenta a arte como algo universal acima da realidade social e pol\u00edtica?.<\/p>\n<p>Ou seja, a raz\u00e3o maior da arte , que \u00e9 justamente esta, est\u00e1 jogada fora, em nome de uma ?virada social da arte?, uma racionaliza\u00e7\u00e3o criada para substituir a impot\u00eancia pol\u00edtica real.<br \/>\nFui andando pelo pavilh\u00e3o do Niemeyer, pensando que o edif\u00edcio moderno era superior a qualquer panfletinho ali exposto.<\/p>\n<p>Pensei que o imp\u00e9rio da sordidez mercantil, a ignor\u00e2ncia no poder, o fanatismo do terror, a bo\u00e7alidade da ind\u00fastria cultural, em suma, toda a tempestade de bosta que nos ronda est\u00e1 muito al\u00e9m do alcance cr\u00edtico de qualquer ?den\u00fancia ? art\u00edstica.. N\u00e3o adianta mais ?chocar ? ningu\u00e9m. Nada que haja na Bienal nos choca mais que uma explos\u00e3o da discoteca onde morrem 300 jovens, nada \u00e9 pior que homens-bomba ou a \u00c1frica ou a lama das favelas e periferias. Nada.<br \/>\nA arte virou um parque tem\u00e1tico de deprimidos, um muro de lamenta\u00e7\u00f5es in\u00fateis.<br \/>\nHoje, sobrou apenas a psicose como bandeira, a melancolia como ?den\u00fancia? de uma vida sem solu\u00e7\u00e3o e a \u00fanica cr\u00edtica do  mundo ocidental \u00e9 feita pelos terroristas isl\u00e2micos.<\/p>\n<p>Intelectuais e artistas vivem em p\u00e2nico, pois seu reinado de s\u00ednteses se extinguiu . Os acontecimentos est\u00e3o incompreens\u00edveis e , no entanto, \u00f3bvios demais. Pipocam religi\u00f5es e irracionalismo autorit\u00e1rio que nos tragam alguma certeza , nem que seja a de chicotes em nossas costas , pedras em nossas cabe\u00e7as ou  guerras sangrentas que nos purifiquem.<br \/>\n           Todas as reflex\u00f5es filos\u00f3ficas ficaram c\u00e9ticas, descrevendo impossibilidades e becos sem sa\u00edda. Nunca imagin\u00e1vamos que o s\u00e9culo 21 seria parecido com o s\u00e9culo 7o .  quando Maom\u00e9 se declarou o \u00fanico profeta <\/p>\n<p>Trope\u00e7ando em perigosas ?instala\u00e7\u00f5es ? pensei que a morte da ?aura? da arte ser\u00e1 mais dif\u00edcil de se aceitar do que pens\u00e1vamos. Com a morte da arte, o artista se v\u00ea abandonado , e ele mesmo passou a usar a luz da ?aura?, passou a ter ?halo?, como uma coroa de espinhos para sua solid\u00e3o. O artista quer virar obra de arte. E tudo faz para esquecer seu abandono, mesmo que seja expor seus excrementos numa latinha. E vemos que ele n\u00e3o abriu m\u00e3o da representa\u00e7\u00e3o, mas cultiva-a ao avesso  da beleza, como uma doen\u00e7a favorita. Ele \u00e9 a representa\u00e7\u00e3o, ele \u00e9 a paisagem.<\/p>\n<p>Acontece ent\u00e3o que cr\u00edticos e ensa\u00edstas sacanas,mas brilhantes como Brad Holland, por exemplo, v\u00eaem essa brecha te\u00f3rica no ar e come\u00e7am a destratar a arte em geral, com claros tons reacion\u00e1rios e, no caso do Holland, muito engra\u00e7ados. Ele se refere ao beco sem sa\u00edda d arte, que descrevo neste artigo-cabe\u00e7a. Diz ele: ?Tanto o dada\u00edsmo como o  surrealismo est\u00e3o superados. \u00c9 imposs\u00edvel distinguir esses movimentos est\u00e9ticos da vida cotidiana. ?E depois: ?n\u00e3o h\u00e1 mais o que transgredir. Tudo foi assimilado. ?Estamos rompendo normas?\u00e9, hoje, o slogan do McDonald?s?. E a piada final, o ?punch line?: ?Antigamente , o artista de vanguarda chocava a classe m\u00e9dia; hoje a classe m\u00e9dia choca o artista de vanguarda.?<\/p>\n<p>Claro que essas piadas n\u00e3o resolvem o impasse. Claro tamb\u00e9m que os artistas contempor\u00e2neos n\u00e3o podem ignorar o horror do mundo e t\u00eam de acusar o golpe. Sim,mas mesmo em tempos terr\u00edveis, h\u00e1 que se buscar alguma transcend\u00eancia,sem desistir da cria\u00e7\u00e3o como esperan\u00e7a e vitalidade.<\/p>\n<p>Depois da Bienal, entrei na exposi\u00e7\u00e3o Ra\u00edzes da Forma, no MAM ? SP, exibindo os principais trabalhos fundadores do Movimento Concreto dos anos 50 em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>E, aqui, devo fazer uma auto-cr\u00edtica: sempre impliquei com os concretos, desde  minha adolesc\u00eancia no Rio, talvez influenciado pela cis\u00e3o entre cariocas e paulistas sobre arte, com a pol\u00eamica entre concretos e neo-concretos do Rio, liderados por Ferreira Gullar. Mas domingo, dentro do MAM, tive uma sensa\u00e7\u00e3o de al\u00edvio, de paz.    <\/p>\n<p>Diante das obras lindas de Ivan Serpa (ele , um precursor livre), de L\u00edgia Clark, de Oiticica ( que me irritava desde as brigas com o Cinema Novo) , Geraldo de Barros, Alu\u00edzio Carv\u00e3o, Alexandre Wollner e outros, diante das formas puras, reencontrei-me com a transcend\u00eancia , sim , ali, no concreto. Sim, a arte que nos pacifica, eleva, nos silencia. E tive a certeza inapel\u00e1vel: a forma \u00e9 tudo. Na forma est\u00e1 a verdade muito mais que na gritaria de den\u00fancias e conte\u00fados desesperados como panfletos. No sil\u00eancio da forma a beleza nos espera, a esperan\u00e7a de sentido nos aplaca. Na beleza das formas organizadas, no desenho da raz\u00e3o est\u00e1 um sentido misterioso, mas imperioso para a vida. Lembrei-me ent\u00e3o de uma frase de Stravinski: ?A obra de arte deve ser exultante.? E entendi que desistir da beleza \u00e9 uma confiss\u00e3o de derrota, \u00e9 legitimar os inimigos.<\/p>\n<p>E s\u00f3 ent\u00e3o 50 anos depois apaixonei-me pelos concretos de S\u00e3o Paulo, liderados pelos irm\u00e3os Campos e Pignatari , eu que j\u00e1 os tinha chamado de<br \/>\n mata-mosquitos da cultura?, no passado. Desculpem-me  hoje 50 anos depois.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Errei meu c\u00e1lculo e perdi a exposi\u00e7\u00e3o dos concretistas no MAM, paci\u00eancia. Fui ent\u00e3o \u00e0 27\u00aa Bienal de S\u00e3o Paulo, entrada gr\u00e1tis, e o \u00fanico prazer que l\u00e1 obtive foi um Eskibon na sa\u00edda por R$3,50. 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