{"id":24876,"date":"2012-09-09T23:08:46","date_gmt":"2012-09-10T02:08:46","guid":{"rendered":"https:\/\/www.stickel.com.br\/atc\/?p=24876"},"modified":"2025-04-07T11:14:59","modified_gmt":"2025-04-07T14:14:59","slug":"vila-olimpia-e-diogenes-moura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/arte\/24876","title":{"rendered":"vila ol\u00edmpia e di\u00f3genes moura"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.stickel.com.br\/atc\/uploads\/vol1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.stickel.com.br\/atc\/uploads\/vol1.jpg\" alt=\"vol\" width=\"709\" height=\"525\" class=\"alignleft size-full wp-image-27249\" \/><\/a><br \/>\nLancei meu livro de fotografias \u201cVila Ol\u00edmpia\u201d em 20 Maio 2006, simult\u00e2neamente \u00e0 inaugura\u00e7\u00e3o da exposi\u00e7\u00e3o de mesmo nome, com curadoria de Di\u00f3genes Moura, na Pinacoteca do Estado de S\u00e3o Paulo.<br \/>\nO livro, editado pela Editora Terceiro Nome, contou com o texto de Di\u00f3genes, a seguir:<\/p>\n<p><strong>Ruas como telas<\/strong><br \/>\nDi\u00f3genes Moura<br \/>\nCurador de Fotografia<br \/>\nPinacoteca do Estado de S\u00e3o Paulo<\/p>\n<p>Numa imagem assinalada por uma geometria simples, um recorte negro interrompe o olhar para quase criar um terceiro plano na medida em que uma esfera de vidro prop\u00f5e ao espectador descobrir: que tubo azulado \u00e9 aquele que ali est\u00e1? O que se passa por tr\u00e1s desse primeiro plano? Quais as refer\u00eancias dessa quase-abstra\u00e7\u00e3o? O que se esconde num an\u00fancio cujo ponto de fuga \u00e9 quase um segredo? A resposta est\u00e1, ou estava, num bairro paulistano sem muita personalidade chamado Vila Ol\u00edmpia. Est\u00e1 na s\u00e9rie que o fot\u00f3grafo e artista pl\u00e1stico Fernando Stickel vem descobrindo nas ruas e recantos daquele mesmo bairro desde 2003. Estava porque a cidade, seu corpo, seus m\u00fasculos, adormece com uma cor e no dia seguinte sua vida cotidiana j\u00e1 lhe trocou as roupas, as dores, os sons, o gozo, os dias, as noites, as palavras. A fotografia n\u00e3o estar\u00e1 mais ali. O recorte, o recanto, o tombo daquela \u201coutra\u201d imagem, ser\u00e1 parte do passado.  <\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio da \u201cdestrui\u00e7\u00e3o\u201d visual imposta pelos grafites &#8211; com sua ira de torcida de futebol organizada -, onde qualquer superf\u00edcie limpa \u00e9 afeto para ser imediatamente polu\u00edda (costuma-se falar que \u00e9 a arte dos sem vozes), as imagens de Stickel praticamente nos remete a uma cidade perfeita. L\u00edmpida, o que S\u00e3o Paulo n\u00e3o consegue ser; harmonizada em suas cores, muito menos; deliciosa de olhar em seu devaneio geom\u00e9trico, tampouco. Stickel criou uma s\u00e9rie em muitos momentos com uma apurad\u00edssima fatura pict\u00f3rica, o que leva sua fotografia para a ponta de um bisturi que perscruta os devaneios da pr\u00f3pria cidade. S\u00e3o imagens do que seria ideal, produzidas em fases que se completam dentro da simplicidade de detalhes comuns, impercept\u00edveis a olho nu: um corte de luz solar por tr\u00e1s de um tonel cria um drama onde se pode escutar barulho em volta; uma lanterna interrompendo novamente o negro de um muro qualquer se transforma num minuto de sil\u00eancio japon\u00eas; uma pin-up fragmentada entre luz e sombra, com seu corpo americanizado, \u00e9 capaz de interromper o passo, para ser notada: aquela mulher transforma-se em transeunte, pulsa, vive com seus poros de pl\u00e1stico.<br \/>\nA cidade de Stickel tem seu mapa geogr\u00e1fico situado entre imagem e palavra, racioc\u00ednio e constru\u00e7\u00e3o. Um filme, uma sess\u00e3o particular: penumbra, urbis e tempo, que, em sua explos\u00e3o luminosa, ultrapassa a expectativa do dia-a-dia e imprime S\u00e3o Paulo como met\u00e1fora e mem\u00f3ria.  <\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.stickel.com.br\/atc\/uploads\/olhar-que-v\u00ea1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.stickel.com.br\/atc\/uploads\/olhar-que-v\u00ea1.jpg\" alt=\"olhar-que-v\u00ea\" width=\"709\" height=\"313\" class=\"alignleft size-full wp-image-27250\" \/><\/a><br \/>\nO livro tem tamb\u00e9m um texto escrito por mim, a seguir:<\/p>\n<p><strong>olhar que v\u00ea<\/strong><br \/>\nFernando Stickel<\/p>\n<p><em>Diz a lenda que Ezra Pound, pr\u00f3ximo de seus \u00faltimos dias e ap\u00f3s ter permanecido em absoluto sil\u00eancio durante anos, ao ser procurado para uma entrevista e permanecer mais uma vez em profundo mutismo, concordou, ap\u00f3s muita insist\u00eancia do entrevistador em proferir uma \u00fanica palavra, que considerasse significativa como mensagem:<br \/>\nCURIOSITY<\/em><\/p>\n<p>Sempre gostei de fotografar e o fa\u00e7o desde cedo: comecei na adolesc\u00eancia, com uma c\u00e2mera 6 x 6, que ganhei do meu av\u00f4 Arthur; em seguida passei a usar uma Pentax Spotmatic 35 mm e depois v\u00e1rias outras ao longo dos anos. Quando conheci o trabalho de Diane Arbus e de Lee Friedlander (s\u00f3 para citar dois mestres), no in\u00edcio dos anos 1970, tive uma certeza: a\u00ed tem coisa!<\/p>\n<p>Desenho, pinto, fa\u00e7o colagens, fotografo e escrevo desde pequeno, e meu principal instrumento de trabalho \u00e9 o olhar \u2013 o olhar que foi sendo treinado para descobrir coisas bonitas, excitantes, nos lugares mais banais e \u00e0 primeira vista desinteressantes; o olhar curioso, que de tanto observar, e observar cada vez com mais paix\u00e3o e crit\u00e9rio, me permitiu desenvolver uma ferramenta poderosa: o olhar que v\u00ea, fundamental para descobrir o que n\u00e3o se mostra \u00e0 primeira vista e sem o qual n\u00e3o existe express\u00e3o art\u00edstica.<\/p>\n<p>Adicione-se a esse \u201colhar que v\u00ea\u201d a minha obsess\u00e3o em caminhar pela Vila Ol\u00edmpia, bairro onde moro e trabalho h\u00e1 vinte anos. Quando me mudei para l\u00e1, esse bairro de S\u00e3o Paulo, delimitado pelas avenidas Santo Amaro, dos Bandeirantes, Marginal Pinheiros e Juscelino Kubitschek, sofria freq\u00fcentemente com as enchentes provocadas pelos c\u00f3rregos Uberaba e Uberabinha, hoje canalizados, e passava por um processo de transforma\u00e7\u00e3o intenso, no qual suas velhas ch\u00e1caras davam lugar a pr\u00e9dios sofisticados e a faculdades, e as pequenas ind\u00fastrias e oficinas que ocupavam sua parte mais baixa se transformavam em mega casas de shows e eventos. A transforma\u00e7\u00e3o r\u00e1pida e intensa deu lugar a tudo, da modernidade \u00e0 decad\u00eancia, da imund\u00edcie \u00e0 sofistica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No in\u00edcio de 2003, com uma c\u00e2mera digital Sony DSC-F717, iniciei um trabalho constante, pesquisando in\u00fameras maneiras de fotografar e diversos temas. A versatilidade da c\u00e2mera, a lente \u201czoom-zeiss\u201d e a possibilidade de ver o resultado instantaneamente transformaram esse per\u00edodo meio ca\u00f3tico, de aprendizado, em uma riqu\u00edssima introdu\u00e7\u00e3o do meu \u201colhar que v\u00ea\u201d no universo da fotografia digital.<\/p>\n<p>Pouco depois, no in\u00edcio de 2004, comecei a caminhar pela Vila Ol\u00edmpia com a c\u00e2mera na m\u00e3o, com a inten\u00e7\u00e3o de fotografar os edif\u00edcios comerciais rec\u00e9m-constru\u00eddos na parte \u201cnobre\u201d do bairro, mas acabei mergulhando justamente nas \u00e1reas mais antigas e degradadas, nos detalhes, ruas, cal\u00e7adas, muros, tapumes, casas, port\u00f5es, beirais e janelas, e os resultados me deixaram excitado e gratificado, pois meu olhar havia encontrado um foco extremamente claro e f\u00e9rtil. <\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, nos fins de semana, por volta das onze horas, de prefer\u00eancia com sol alto e c\u00e9u azul, saio andando. Minhas caminhadas duram entre uma e duas horas; cada dia fa\u00e7o um roteiro diferente, e \u00e9 interessante como, mesmo passando v\u00e1rias vezes por um mesmo lugar ou determinada rua, sempre acabo descobrindo algo novo. Ao voltar para casa descarrego as fotos no meu Macintosh, seleciono as melhores, trato-as minimamente no Photoshop, as arquivo.  E, agora re\u00fano uma sele\u00e7\u00e3o delas neste livro.<\/p>\n<p>Uma particularidade interessante deste trabalho s\u00e3o as conversas que acabo tendo com algum morador mais curioso ou ressabiado, ou com as crian\u00e7as, que s\u00e3o bem mais acess\u00edveis e pedem para ser fotografadas, ou at\u00e9, como aconteceu uma vez, com a moradora de uma casa humilde que eu fotografava e que veio me perguntar se eu a estava observando pensando em seq\u00fcestr\u00e1-la!<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.stickel.com.br\/atc\/uploads\/bruno31.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.stickel.com.br\/atc\/uploads\/bruno31.jpg\" alt=\"bruno3\" width=\"709\" height=\"356\" class=\"alignleft size-full wp-image-27251\" \/><\/a><br \/>\nMeu amigo Bruno Mortara tamb\u00e9m escreveu:<\/p>\n<p><strong>A fotografia de Fernando Stickel<br \/>\n<\/strong><br \/>\n&#8220;Qualidade, luz, cor, profundidade, que est\u00e3o a\u00ed diante de n\u00f3s, a\u00ed s\u00f3 est\u00e3o porque despertam um eco em nosso corpo, porque este lhes faz acolhida.&#8221; (Maurice Merleau-Ponty em <em>O olho e o esp\u00edrito<\/em>, 1960)<\/p>\n<p>O plano do devir que nos atinge \u00e9 repercutido no corpo e pelo corpo do artista. Seu corpo funciona como uma janela nervosa indo de um lado ao outro, de cima a baixo, girando a cabe\u00e7a, inclinando-se. A intersec\u00e7\u00e3o do plano da vida com o plano do olhar \u00e9 o resultado do trabalho do artista.<\/p>\n<p>Fernando Stickel nos apresenta suas imagens: resultado da conjun\u00e7\u00e3o do trabalho do m\u00fasculo do olho, da consci\u00eancia, da inconsci\u00eancia e da imagina\u00e7\u00e3o, que selecionam o que ver, e do trabalho do m\u00fasculo do dedo indicador direito, que decide o momento certo a ser selecionado &#8211; em detrimento de todos os outros. \u00c9 nessa escolha que seu ser se funde nas imagens captadas. As imagens revelam muito daquele que seleciona e comp\u00f5e, brinca e pinta recriando seu pr\u00f3prio mundo. \u00c9 por isso que ao ver suas fotos sentimos alegria e curiosidade. Sentimos o olhar-crian\u00e7a do artista adulto-que-pensa-a-vida.<\/p>\n<p>As imagens sentidas-escolhidas por Fernando Stickel fazem lembrar aquilo que Merleau-Ponty disse sobre a percep\u00e7\u00e3o: a sele\u00e7\u00e3o de alguns fragmentos do fluxo de fen\u00f3menos que nos atingem \u00e9 j\u00e1 parte da obra do artista, seu visar. Sua sensibilidade, atrav\u00e9s de seu visar, seleciona ver isso e n\u00e3o aquilo, a todo momento. Isso reduz o fluxo de sensa\u00e7\u00f5es a recortes particularizados da realidade &#8211; o mundo do artista. Ao clicar um fragmento desse seu mundo, Fernando Stickel nos revela aspectos das coisas que j\u00e1 estavam l\u00e1 e n\u00e3o seriam percebidos sem o visar do artista. Essa revela\u00e7\u00e3o, resultado do processo de cria\u00e7\u00e3o, \u00e9 o que o artista tem de mais precioso e nos mostra sua maneira \u00fanica de penetrar nos mist\u00e9rios daquilo que aparentemente est\u00e1 vis\u00edvel para todos mas s\u00f3 alguns s\u00e3o capazes de perceber.<\/p>\n<p>Com atitude provocadora, o artista foge da vis\u00e3o cl\u00e1ssica de mundo &#8211; como cosmo, ordem ou totalidade. A partir de seu corpo, mergulhado no mundo, Fernando Stickel garimpa nos fragmentos da realidade o fio condutor para expressar suas percep\u00e7\u00f5es, emo\u00e7\u00f5es e valores.<\/p>\n<p>Bruno Mortara<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lancei meu livro de fotografias \u201cVila Ol\u00edmpia\u201d em 20 Maio 2006, simult\u00e2neamente \u00e0 inaugura\u00e7\u00e3o da exposi\u00e7\u00e3o de mesmo nome, com curadoria de Di\u00f3genes Moura, na Pinacoteca do Estado de S\u00e3o Paulo. 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