{"id":1763,"date":"2004-12-31T11:45:11","date_gmt":"2004-12-31T14:45:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.stickel.com.br\/atc\/?p=1763"},"modified":"2008-02-15T18:04:16","modified_gmt":"2008-02-15T20:04:16","slug":"acabo-de-receber-da-minha-amiga-ana-lins-passou","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/stickel.com.br\/atc\/coisas\/1763","title":{"rendered":"passou"},"content":{"rendered":"<p><\/B>Acabo de receber da minha amiga Ana Lins: <br \/>PASSOU <br \/>O ano passou. N\u00e3o sei se v\u00f3s, leitor amigo, ou v\u00f3s, distinta leitora, o passastes bem. Eu, como j\u00e1 passei muitos, os tenho passado de todo jeito, e ainda hoje esse segundo que vem depois da meia-noite me perturba. J\u00e1 passei ano s\u00f3, em terra estranha, ou, o que \u00e9 mais amargo, na minha; ou andando como um tonto na rua ou afundado num canto de um bar ruidoso; tentando inutilmente telefonar; dormindo; com dor de dente. E quando digo de todo jeito estou dizendo tamb\u00e9m de jeito feliz, entre gente irm\u00e3 ou nos bra\u00e7os de algum amor eterno &#8211; bra\u00e7os que depois dobraram a esquina do m\u00eas e da vida, e se foram, oh! provavelmente sem sequer a mais leve m\u00e1goa nos cotovelos, apenas indo para outros bra\u00e7os. <br \/>Passam os anos, passam os bra\u00e7os; mas fica sempre, quando a terra d\u00e1 outra volta em si mesma, essa emo\u00e7\u00e3o confusa de um instante. Conhe\u00e7o pessoas que fogem a esse segundo de consci\u00eancia c\u00f3smica, afetando indiferen\u00e7a, indo dormir cedo &#8211; como se n\u00e3o estivessem interessadas em saber se esta piorra velha deste planeta resolveu continuar girando ou n\u00e3o. \u00c9 singular que entre tantas festas religiosas e c\u00edvicas nenhuma chegue a ser t\u00e3o emocionante e perturbe tanto a humanidade como esta, que \u00e9 a Festa do Tempo. \u00c9 como se todos estiv\u00e9ssemos fazendo anos juntos; \u00e9 o Anivers\u00e1rio da Terra. <br \/>Se a alma estremece diante do Destino, o esp\u00edrito se confunde; reina uma tend\u00eancia \u00e0 filosofia barata; vejam como eu come\u00e7o a escrever algumas palavras com mai\u00fasculas, eu que levo o ano inteiro proseando em tom menor, e mesmo o nome de Deus s\u00f3 escrevo assim para n\u00e3o aborrecer os outros, ou para que eles me n\u00e3o aborre\u00e7am. <br \/>J\u00e1 ao nome do diabo, n\u00e3o; a esse sempre dei, e dou, o &#8220;d&#8221; pequeno, que outra coisa n\u00e3o merece a sua dana\u00e7\u00e3o. A ele encomendamos o ano que passou e a Deus o Novo. Que v\u00e1 com mai\u00fascula tamb\u00e9m, esse Novo; fica mais bonito, e levanta nosso moral. <br \/>E se entre meus leitores h\u00e1 alguma pessoa que na passagem do ano teve apenas um amargo encontro consigo mesmo, e viveu esse instante na solid\u00e3o, na tristeza, na desesperan\u00e7a, no sofrimento, ou apenas no odioso t\u00e9dio, que a esse algu\u00e9m me seja permitido dizer: &#8220;Vinde. Vamos tocar janeiro, vamos por fevereiro e mar\u00e7o e abril e maio, e tudo que vier; durante o ano a gente o esquece, e se esquece; \u00e9 menos mal. E \u00e0s vezes, ao dobrar uma semana ou quinzena, \u00e0s vezes d\u00e1 uma aragem. D\u00e1, sim; d\u00e1, e com sombra e \u00e1gua fresca. E quem vo-lo diz \u00e9 quem j\u00e1 pegou muito no sol nos desertos e muito morma\u00e7o nas charnecas da exist\u00eancia. Coragem, a Terra est\u00e1 rodando; vosso mal ter\u00e1 cura. E se n\u00e3o tiver, refleti que no fim todos passam e tudo passa; o fim \u00e9 um grande sossego e um imenso perd\u00e3o.&#8221; <br \/>Rio, Janeiro de 1952 <br \/>Rubem Braga, em A borboleta amarela<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Acabo de receber da minha amiga Ana Lins: PASSOU O ano passou. N\u00e3o sei se v\u00f3s, leitor amigo, ou v\u00f3s, distinta leitora, o passastes bem. Eu, como j\u00e1 passei muitos, os tenho passado de todo jeito, e ainda hoje esse segundo que vem depois da meia-noite me perturba. 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